Donald Trump encontrou finalmente a fórmula para acabar com a guerra na Ucrânia: pedir a Volodymyr Zelensky que pare de atacar refinarias russas. Não porque isso traria paz, justiça ou segurança à Europa, mas porque há gasóleo russo a caminho do mercado norte-americano.
A lógica é de uma coerência impressionante. Quando a Europa tenta isolar a Rússia para impedir que Moscovo financie a invasão da Ucrânia com exportações de energia, Trump descobre que a solução não é manter a pressão — é comprar o combustível do agressor. Mas atenção: a Ucrânia não pode tocar nas refinarias. Essas, afinal, passaram subitamente de infraestrutura de guerra russa a património estratégico da política energética americana.
Zelensky chamou ao acordo «uma decisão fraca de parceiros fortes». Trump respondeu sugerindo que a Ucrânia precisava de um novo presidente. Porque nada transmite mais confiança nas instituições democráticas do que pedir a substituição do líder de um país que está a ser invadido.
E aqui está a parte verdadeiramente genial: o mesmo homem que exige que a Ucrânia poupe as refinarias russas para não encarecer os combustíveis fósseis foi o mesmo que decidiu atacar o Irão. Porque, naturalmente, bombardear um grande produtor de petróleo no Golfo é a forma mais eficiente de manter os preços da energia baixos — desde que se ignorem os mercados, a geografia, a história e a aritmética.
O resultado foi o de sempre: risco de escalada, instabilidade no Golfo, prémios de risco no petróleo e combustíveis mais caros para consumidores que Trump depois promete proteger. Mas não importa. Quando os preços sobem por causa de uma guerra que ele próprio ajudou a inflamar, a culpa é dos especuladores, da Europa, de Zelensky, do Irão ou de quem aparecer primeiro numa conferência de imprensa.
Entretanto, a Rússia recebe sanções suspensas, novas receitas e o pedido educado para que a Ucrânia deixe de atingir a indústria que financia os seus mísseis. Em troca, Moscovo oferece aquilo a que já nos habituou: promessas vagas, violações futuras e a certeza de que a guerra continuará enquanto for lucrativa.
Zelensky respondeu que só pararia os ataques se a Rússia cessasse os seus contra a infraestrutura energética ucraniana. Uma ideia escandalosamente razoável — tanto que foi imediatamente tratada como um obstáculo à paz.
No final, a doutrina Trump é simples: bombardeia o Irão, compra gasóleo à Rússia, poupa as refinarias de Putin e culpa a Europa por não entender a genialidade. Paz, portanto — não para a Ucrânia, mas para o cartão de combustível americano.
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