“Sejamos (in)cultos”

Vivemos numa época singular. Pois nunca tivemos tanto acesso à informação, mas, paradoxalmente, isso não impede — e até facilita — a persistência do desconhecimento.

Atualmente, o conhecimento está a poucos cliques de distância, disponível em múltiplos formatos, linguagens e plataformas. Ainda assim, cresce uma espécie de indiferença cultural — um desinteresse silencioso que se instala no quotidiano e se vai normalizando. É neste contexto que surge a provocação: sejamos (in)cultos.

Mas o que significa, afinal, ser “inculto” hoje? Já não se trata apenas da ausência de escolaridade ou do desconhecimento de referências clássicas. A (in)cultura contemporânea é mais subtil. Manifesta-se na recusa ou receio em questionar, na preguiça de aprofundar, na facilidade com que se aceita o superficial como suficiente. A incultura revela-se na aceitação de ações sem contexto, de opiniões sem fundamento e de julgamentos sem reflexão.

Por outro lado, ser culto também mudou. Já não se resume a citar autores consagrados ou a dominar factos históricos. Ser culto, hoje, exige curiosidade ativa, espírito crítico e abertura ao mundo. Implica saber ouvir, duvidar, cruzar perspetivas e questionar. É menos um estatuto e mais um exercício contínuo.

O problema é que, entre estas duas realidades, parece emergir uma escolha confortável: a de sermos “incultos por opção”. Não por falta de acesso ao conhecimento, mas por excesso de distração ou desinteresse. As redes sociais, os ciclos rápidos de informação e a cultura do imediato favorecem conteúdos leves, rápidos e facilmente digeríveis. Contudo, esta escolha tem consequências. Uma sociedade que abdica do pensamento crítico torna-se mais vulnerável à manipulação, à desinformação e ao extremismo. A cultura, no seu sentido mais amplo, não é um luxo — é um instrumento essencial de cidadania. É ela que nos capacita para compreender, participar e moldar a realidade que nos rodeia.

Ser culto não significa saber tudo. Significa reconhecer aquilo que ainda nos escapa. “Sejamos (in)cultos” deve, assim, ser entendido como um alerta, um apelo irónico à consciência das escolhas que fazemos todos os dias, entre aprofundar ou ignorar, entre compreender ou simplificar, entre crescer ou estagnar.


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