Freguesias da Madeira: Gaula

FOTO: ANABELA GOMES, © FEVEREIRO 2026.

 

Nelson Veríssimo

A freguesia de Gaula, na costa sudeste da ilha da Madeira, estende-se do mar à serra, confinando com a ribeira do Porto Novo, o oceano Atlântico e as freguesias da Camacha e de Santa Cruz.

ANTIGA IGREJA DE GAULA DESTRUÍDA POR UM INCÊNDIO EM 1964.

Dificilmente podemos acreditar que o topónimo ‘Gaula’ provenha do romance medieval ‘Amadis de Gaula’. Contrapor que deriva do apelido ‘Gaula’, implica documentar a existência de um povoador assim chamado, mas nenhuma fonte o confirma. Permanece, pois, como enigma a designação desta freguesia.
As terras de Gaula foram povoadas na segunda metade do século XV. São conhecidos os nomes de alguns dos primeiros povoadores, como Lançarote Teixeira, Fernão Nunes, Gomes Vaz, Nuno Fernandes Cardoso, Lopo Fernandes ou Afonso da Mata.

Gaspar Frutuoso escreveu, por volta de 1584, que era uma «povoação de trinta vizinhos… que tem muitas vinhas de malvasia e muitos outros vidonhos». Contudo, o Recenseamento de 1598 registou 64 fogos e 241 almas de confissão, isto é, maiores de sete anos.

TORRE DA MATRIZ DE GAULA. FOTO: ANABELA GOMES, © FEVEREIRO 2026.

 

Em 13 de setembro de 1509, o rei D. Manuel nomeou o padre João de Peral como capelão da igreja de Santa Maria da Luz de Gaula. Peral iniciou o seu ministério no Natal desse ano. Em 1518, Gaula já era paróquia. João de Peral, depois de ter exercido o cargo de capelão durante alguns anos, veio a ser o primeiro vigário desta freguesia.

A primitiva igreja foi profundamente reconstruída no século XVIII, a partir de 1714, tendo sofrido estragos com o terramoto de 1748, o que obrigou a trabalhos de reabilitação. Na primeira metade do século XX, realizaram-se importantes obras, como a Capela do Santíssimo, a torre e a ampliação da igreja com duas alas laterais.

CRUZ PROCESSIONAL DA ANTIGA IGREJA DE GAULA. SÉC. XVI. MUSEU DE ARTE SACRA DO FUNCHAL. FOTO: ARQUIVO MASF.

 

Em 21 de setembro de 1964, o templo foi consumido por um incêndio. Como pode ler-se no ‘Diário de Notícias’ do dia seguinte: «Um violento incêndio reduziu às paredes a vetusta Igreja de Gaula, chegando a destruir parte da residência paroquial. Perdeu-se na catástrofe todo o valioso património artístico. Imagens, altares, objetos do culto e ricos paramentos, tudo as chamas furiosas consumiram.»
Optou-se, então, por arrasar o que restava da igreja incendiada e construir novo templo.

Embora concluída na década de 70 do século passado, somente em 8 de dezembro de 2024 ocorreu a cerimónia de dedicação da Igreja de Nossa Senhora da Luz e respetivo altar. O salão paroquial foi inaugurado em 10 de setembro de 1989.

TRÍPTICO DE NOSSA SENHORA DA MISERICÓRDIA. JAN PROVOOST, C. DE 1515. PROVENIENTE DA ANTIGA CAPELA DE SÃO JOÃO DE LATRÃO, GAULA. MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA.

 

A freguesia tem atualmente duas paróquias: Nossa Senhora da Luz e Nossa Senhora da Graça, na Achada de Gaula, tendo esta sido criada pelo Decreto sobre a atualização das paróquias, de 24 de novembro de 1960, do bispo D. Frei David de Sousa.

A igreja da Achada de Gaula, construída com grande e generoso empenho dos paroquianos e emigrantes, foi sagrada em 8 de setembro de 1968, pelo bispo D. João Saraiva. O engenheiro Alberto Correia Neves elaborou graciosamente o projeto arquitetónico. A obra iniciou-se em agosto de 1961. O terreno para a edificação da sede da nova paróquia, com uma área de 2000 m2, foi adquirido em condições vantajosas e por baixo preço, 90 contos, aos herdeiros de António José Vieira Pessegueiro.

SOLAR DE SÃO JOÃO DE LATRÃO. FOTOS: ANABELA GOMES, © FEVEREIRO 2026.

 

O que hoje podemos observar em Gaula, no âmbito do património cultural, é parcela muito reduzida do que existiu nesta freguesia. De Gaula desaparecida, poderíamos enumerar o Forte de São Marcos, o Solar de Nossa Senhora da Assunção e a sua capela, a antiga Capela de São João de Latrão e as casas senhoriais de diversos morgados. Restam moinhos, poços de rega escavados na rocha, fontanários e o Solar de São João de Latrão, que está à venda há vários anos.

Da freguesia, mas em museus, encontram-se importantes obras de arte: no Museu de Arte Sacra do Funchal, a cruz processional em prata, com vestígios de douramento, do século XVI, e uma escultura de São Brás, em pedra de Ançã, dos finais do século XV ou inícios do XVI; no Museu Nacional de Arte Antiga, o Tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia, do pintor Jan Provoost, de c. de 1515, proveniente da Capela de São João de Latrão, mandada edificar por derradeira vontade do mercador e produtor de açúcar, Nuno Fernandes Cardoso, e sua mulher, Leonor Dias, conforma consta do seu testamento, datado de 3 de abril de 1511. Foi vendido à Academia Real de Belas-Artes em 1876, por Agostinho de Ornelas.

Em 28 de maio de 1950, foi inaugurado o novo edifício do Centro Sanitário de Gaula, construído no sítio do Farrobo, pelo empreiteiro Luís Gomes, sob a direção do engenheiro José Humberto Santos Guerreiro. Este Centro, dirigido pelo dr. Mário Gomes Figueira, funcionava num prédio arrendado pela Junta Geral, desde a sua criação em 1945. Praticava medicina preventiva e curativa, puericultura e vacinação.

A rede de distribuição elétrica, em Gaula, foi inaugurada em 1955. Quatro anos depois, foram inaugurados 16 fontanários dos 21 previstos no Plano de abastecimento de água potável à freguesia, executado pela Câmara Municipal de Santa Cruz, e delineado na presidência de Aires Victor de Jesus, no início dos anos 50.

CULTURA DA CANA SACARINA EM GAULA. FOTO: ANABELA GOMES, © FEVEREIRO 2026.

 

Em 1 de Setembro de 1972, ocorreu a inauguração oficial da Estação de Cabos Submarinos do Porto Novo, que permitiu chamadas telefónicas automatizadas e diretas com o continente português e os países estrangeiros.

Nas últimas décadas, a freguesia beneficiou de estradas municipais, caminhos agrícolas, equipamentos escolares e desportivos, um centro cívico, mercado, praça pública e outros investimentos públicos e privados.

Por ocasião da tentativa de implantação das Juntas de Paróquia nas freguesias do distrito do Funchal, conforme determinava o Código Administrativo de 1886, ocorreu em Gaula, em outubro de 1887, uma revolta popular, com grande participação de mulheres, contestando aquele corpo administrativo. Receavam o lançamento de novos impostos, que agravariam a já difícil situação económica.

Cerca de 400 gauleses dirigiram-se, dias depois, a Santa Cruz, a fim de protestarem junto do administrador do concelho e do presidente da Câmara. Esta rebelião popular estendeu-se depois a outras freguesias, num amplo movimento de oposição às Juntas de Paróquia. O Governo português enviou forças militares para a ilha da Madeira que, conjuntamente com as aqui aquarteladas, reprimiram as manifestações de oposição.

Nesta freguesia, está a génese do Partido Político “Juntos pelo Povo” (JPP), quando, em 2008, um grupo de cidadãos, denominado “Pelo Povo de Gaula” (PPG), concorreu, em eleições intercalares, para a Assembleia de Freguesia de Gaula. Este grupo deu origem, em 4 de abril de 2009, ao movimento cívico ‘Juntos Pelo Povo’, que, em 27 de janeiro de 2015, se transformou num partido político.

A paisagem agrícola é dominada por hortícolas, frutas subtropicais, vinha e algumas plantações de trigo, apoiadas pela Junta de Freguesia, num programa delineado para evitar o desaparecimento desta cultura, tão importante no passado, garantir a propagação de uma espécie, bem-adaptada na localidade – Triticum aestivum, comummente conhecido como trigo-mole – e também preservar práticas agrícolas associadas a tradições culturais e gastronómicas.

De acordo com o Recenseamento Agrícola de 2019, existiam 9507 ha de Superfície Agrícola Total, enquanto a Superfície Agrícola Utilizada (SAU = terra arável limpa + culturas) ficava pelos 6147 ha, o que denota o abandono da agricultura, como, de resto, acontece nas demais freguesias da Madeira.

Através das memórias descritivas dos processos de licenciamento, sabemos da existência de dez moinhos da freguesia de Gaula, em 1936: 1 no sítio do Pico – Cova do Moinho; 1 no sítio da Fazenda; 3 na Achada; 5 no sítio das Levadas. Todos trabalhavam por maquia, isto é, os moleiros tinham direito a uma porção de farinha, a maquia, como forma de pagamento da moagem.

Hoje já não há moinhos a laborar, mas um pode ser visitado, com marcação prévia.
Nesta freguesia, funciona um engenho artesanal, fundado em 1982, para produção de rum agrícola, ‘O Reizinho’, marca galardoada a nível nacional e internacional com várias medalhas de ouro e prata, desde 2017.

Gaula, nas últimas décadas, perdeu parte da área agrícola em favor da construção habitacional, ganhando, por outro lado, novos moradores, muitos deles com emprego fora da freguesia. Desde 1991, verifica-se um crescimento da população. Em 2021, tinha a terceira mais alta taxa de emprego da Região, ou seja, 49,5%.
Nos ‘Censos de 2021’, a freguesia de Gaula apresentava 3925 habitantes. O Recenseamento Eleitoral, de 31 de dezembro de 2024, registou 3889 cidadãos nacionais, 6 da União Europeia, não nacionais e 11 outros cidadãos estrangeiros residentes na freguesia.

BRASÃO DA FREGUESIA DE GAULA.

 

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de púrpura, mó de prata, furada do campo; em chefe, duas esporas de ouro, acantonadas, postas em pala; em campanha, amoreira arrancada de prata, frutada de ouro. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “GAULA”. (Diário da República, n.º 100, 3.ª Série, Parte A, de 24-05-2005).

O brasão representa a pretensa ligação do topónimo ao romance de cavalaria ‘Amadis de Gaula’, a produção e moagem de cereais e as amoreiras da freguesia.


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