Quando as notícias do mundo invadem as horas da nossa rotina várias coisas podem acontecer. Na eminência de não podermos interferir em factos consumados, ou determinismos invioláveis, uma delas é a procura de refúgio no que possa preencher o vazio da nossa inoperância. Numa conversa de circunstância alguém sugeriu: Vê um filme, uma história simples que te aligeire os pensamentos ! Outra sugestão surgiu de alguém bem intencionado que recomendou: Lê ! Procura boas leituras. Actualiza-te !
Óptimos conselhos de gente amiga não se recusam: Fazem pensar. Por isso…
A este propósito, duas questões controversas se colocam sobre linguagem e pensamento ; a Palavra e a Ideia. Numa imagem de relance que a TV debitou há dias, ouvi dum especialista uma frase que separa estes dois conceitos: «É preciso ler o mundo. A palavra vem depois». Por outro lado, Iris Murdoch numa das suas obras, através duma pergunta afirmou uma convicção: «se não fossem as palavras como poderíamos pensar?».
A partir daqui a polémica está lançada, tal como a história a regista na sua tradição popular. Para que exista uma galinha é preciso que exista já o ovo. Ou então, o ovo só existe porque antes já lá estava a galinha. Na sequência do desenvolvimento da civilização os humanos já formulavam ideias antes de conheceram as palavras. Intuíam pensamentos inquiridores sobre os fenómenos da Natureza que expressavam por gestos e rituais sagrados onde incluíam sons e movimento. O questionamento fazia parte do processo de interacção e integração do ser humano no espaço que o envolvia.
Ainda hoje é esse o motor que movimenta a História: o «Questionamento». As afirmações que numa época caracterizam um estádio de desenvolvimento dos povos mudam ao longo do tempo. Por isso a invenção dos signos foi necessária para que o pensamento pudesse criar uma interacção e os humanos manifestassem entre si processos alargados de interpretação e fruicção do mundo.
Perante esta realidade qualquer dos conceitos acima expressos tem a sua razão de ser:
Ler o mundo é uma questão emanente de sobrevivência. As palavras, precisamos delas para pensar sobre ele e formular e expressar ideias. Todo o ser humano enforma esta dualidade em menor ou maior grau de eficiência. E aqui poderão ser evocados, com o seu específico processo de representação dos signos, o código Braille ou a língua gestual dos surdos.
Alguns analfabetos e semi-analfabetos possuem capacidades inatas de percepcão e não podemos ignorar essa circunstância que nos é veiculada pelos aforismos e «ditados» populares onde se revela uma sabedoria reminescente hoje valorizada pela Literatura Oral. Há um exemplo português de relevo que é o do poeta António Aleixo. Não vou alongar-me em considerações sobre esta personalidade de Pensador popular. Mas creio que neste caso prevalecia em primeiro lugar a leitura perspicaz do mundo e só depois ele agarrava as palavras, as mais simples e rotineiras para elaborar os seus pensamentos mais profundos. Quadras simples de uma inegável sabedoria.
Preciso de extrair uma conclusão de tudo isto: Poderemos pensar o mundo antes das palavras. Mas as palavras libertam o pensamento e livram-no da clausura. O aprisionamento do pensamento não contribui em nada para o processo da humanização.
Linguagem e Pensamento, (Palavra e Ideia), cada um destes conceitos tem seu lugar próprio. Mas completam-se na grande área da Comunicação. A todo o momento se comprova este facto universal.
Fev. 2026
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