Carta Aberta ao Presidente do Governo da RAM

Senhor Presidente do Governo Regional da Madeira, Dr. Miguel Albuquerque

Escrevo-lhe publicamente para colocar questões que, neste momento político decisivo, muitos madeirenses e porto-santenses também, seguramente, colocam. Os atos eleitorais mais recentes (dos quais destaco as Presidenciais de 18 de janeiro de 2026) revelaram mudanças profundas no comportamento eleitoral da Região Autónoma da Madeira, mudanças essas que merecem uma reflexão séria, transparente e responsável por parte de quem governa a RAM desde 2015 e que, infelizmente, não tem conseguido inverter a atual tendência do eleitorado.

Nas últimas eleições legislativas nacionais de 18 de maio de 2015, o partido Chega registou uma subida expressiva na Madeira. Ontem, dia 18 de janeiro de 2026, nas presidenciais, André Ventura foi o candidato mais votado na Região, um resultado que, independentemente da leitura política que dele se faça, representa uma transformação significativa no panorama eleitoral madeirense.
Perante estes factos, gostaria de lhe colocar algumas questões que considero essenciais para compreender(mos) o momento que todos atravessamos:

1. Que razões identifica para a ascensão do Chega na Madeira? Muitos cidadãos interrogam-se sobre o que explica este crescimento e apontam o descontentamento com a governação regional; as diversas falhas de representação por parte dos partidos tradicionais; a sensação de impunidade e o crescendo das desigualdades na Região; ou, pelo contrário, uma estratégia eficaz do Chega em captar frustrações e transformá-las em capital político (algo que outros partidos políticos não souberam fazer).

2. Como interpreta o facto de André Ventura ter sido o candidato presidencial mais votado na Região? Este resultado não pode ser encarado como um fenómeno isolado. Ele traduz um sentimento coletivo que merece ser compreendido e devidamente analisado (para não dizer combatido). Será que os madeirenses sentem, de uma forma mais profunda/real, que as instituições democráticas não têm respondido às suas diversas necessidades/exigências? Ou que os discursos de confronto e simplificação encontram terreno fértil onde a política tradicional deixou de comunicar e encontrar respostas válidas para os problemas do presente e futuro?

3. Porque estão os partidos moderados e do chamado “arco da governação” a perder eleitores na Madeira? A erosão do apoio ao partido que governa a Região levanta questões estruturais: falta de renovação? Distanciamento face aos problemas “reais”/concretos das famílias? Percepção de que a governação se tornou previsível, fechada e/ou pouco transparente? Incapacidade de apresentar soluções novas para desafios repetidos e/ou inéditos?

4. Como explica que tantos madeirenses estejam agora a preferir um partido que muitos consideram antidemocrático e de extrema direita? Esta é talvez (mesmo) a questão mais sensível e mais urgente. Quando uma parte significativa da população passa a ver num partido radical a melhor forma de expressar o seu voto, isso significa que algo falhou antes – na política, na comunicação, na confiança, na proximidade ou na capacidade de resolver problemas efetivos.

Senhor Presidente, estas perguntas não pretendem acusar ninguém, mas sim convocar à responsabilidade democrática. A Região Autónoma da Madeira – e os seus sucessivos Governo(s) do PSD – sempre se orgulhou da sua estabilidade, da sua identidade e da sua maturidade cívica. Se hoje assistimos a uma mudança tão profunda, é essencial compreender o que está na sua origem.

A democracia exige mais do que governar: exige ouvir, interpretar e responder. E exige, sobretudo, que quem lidera não ignore os sinais que o povo envia através do voto.

Com consideração,
Miguel A Palma Costa


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