Lapinha do Caseiro no Museu Etnográfico: visitar em 2026 vai ser mais caro

Rui Marote
Estivemos na Ribeira Brava, onde visitámos o Museu Etnográfico da Madeira, para matar saudades da Lapinha do Caseiro, em exposição nesta quadra natalícia. Veio-nos à memória o tempo em que, então ao serviço do Jornal da Madeira, nos anos 70 efectuámos uma reportagem no Parque de Santa Catarina, sobre as trezentas e mais peças esculpidas em cedro e cortiça, então expostas numa tenda naquele parque, retratando tanto figuras do quotidiano madeirense como figuras bíblicas.
Conhecemos o sobrinho do caseiro, proprietário da Ourivesaria Áurea, no nº 39 Rua do Aljube (hoje não existe), que vivia no Caminho do Monte, local onde o caseiro exibia a sua lapinha.
Francisco Ferreira -o “Caseiro” – exibiu durante 70 anos um dos mais célebres presépios da ilha como uma das grandes atracções de Natal madeirense  e que se encontra agora integrada no circuito expositivo do Museu Etnográfico da Madeira-
Ribeira Brava.
Este artesão, que não sabia ler nem escrever, aos 14 anos esculpia já as suas peças em madeira de cedro, com a ajuda de um canivete.
Francisco Ferreira, que nasceu em 1846 e faleceu em 1931 por alcunha “o Caseiro”, (dado ser caseiro das freiras de Santa Clara) casou com uma senhora da Calheta. Sendo analfabeto, sua esposa lia-lhe as passagens bíblicas nas quais se viria a inspirar para as suas esculturas.
O artista de cariz popular soube assim captar os tipos e costumes da sua área e da tradição bíblica, tornando-se assim a  lapinha num dos centros de atracção da freguesia do Monte na primeira metade  do séc. XX. Era então verdadeiramente
obrigatória uma visita à lapinha do caseiro.
Todos os anos apareciam novos trabalhos, alguns fruto dos acontecimentos do ano e das “bilhardices”, que tornavam esta lapinha o centro de uma verdadeira romaria regional levando o autor a construir no quintal, em 1925, uma pequena capela  onde apresentava a lapinha.
O Caseiro faleceu a 13 de Junho de 1931. A lapinha ainda ficou patente alguns anos, até que um incendio  em 1973, destruiu a pequena capela anexa à casa. A família ,no entanto, havia já retirado a quase totalidade das imagens, num conjunto de cerca de 300 peças, parte das quais depositadas no Museu Arte Sacra do Funchal pelos herdeiros e, subsequentemente transferidas parta o Museu Etnográfico da Madeira.
O “caseiro” era bisavô do grande poeta Herberto Helder. Razões mais que suficientes para despertar o interesse pela lapinha e viver esta quadra. A Ribeira Brava aguarda os visitantes, que darão por bem empregue a sua visita ao museu.
O Funchal Notícias anuncia em primeira mão que a partir do próximo ano o Governo Regional pretende aumentar as entradas nos museus, já partir de Janeiro em 50% . Se os madeirenses de um modo geral não visitavam museus com este aumento vão afugentá-los ainda mais. Isto não tem muita lógica, uma vez que os madeirenses têm entrada livre no miradouro, Cabo Girão, nos  trilhos para andar na serra (embora com hora marcada) e no Jardim Botânico.
Nos Estados Unidos da América, Washington é a cidade da EUA com mais museus; todos são grátis, quer para turistas ou residentes.
Não se compreende que no Museu Etnográfico, cuja maioria das peças ali existentes  foram doadas, e reflectem a historia deste povo ilhéu, os madeirenses tenham de pagar para entrar.
Vamos encerrar com uma história de uma grande colecção de bonecas com trajes típicos internacionais que esteve em exposição anos 80 no átrio do Teatro Municipal: a mesma pertencia à filha de Cesário Nunes, que escrevia as famosas crónicas da secção “Giz na Parede” no Diário da Madeira. A colecção foi comprada ou doada à Secretaria do Turismo na tutela de João Carlos Abreu que colocou este espólio na Ponta de Sol, em instalações nos arredores da igreja. Mas o mesmo “evaporou-se” não se sabendo o paradeiro desta colecção única no país. Aqui fica esta nota.

Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.