Freguesias da Madeira: Câmara de Lobos

FOTO: © RUI MAROTE, 2016.

Nelson Veríssimo

O topónimo lembra os muitos lobos-marinhos, Monachus monachus, que existiam na baía e numa lapa, quando os povoadores portugueses aqui aportaram em 1420, numa viagem de reconhecimento da costa sul da ilha da Madeira.

João de Barros (1497-1562), na Década I, escreveu que «[…] ao tempo que João Gonçalves saiu em terra, era ela tão coberta de espesso e forte arvoredo, que não havia outro lugar mais descoberto que uma grande lapa: ao modo de câmara abobadada que se fazia debaixo de uma terra soberba sobre o mar. O chão da qual lapa estava mui sovado dos pés dos lobos marinhos que ali vinham retouçar: ao qual lugar ele chamou Câmara de Lobos» (L.º I, cap. III).

 

 

O apelido Câmara, que os descendentes de Zarco receberam, bem como o brasão, concedido pelo rei D. Afonso V em 1460, ao primeiro capitão do Funchal, estão relacionados com este lugar.

Não se conhece a data da criação da paróquia de Câmara de Lobos, mas é posterior a 1461. Neste ano, os homens-bons da capitania do Funchal escreveram ao Infante D. Fernando, requerendo, entre outros assuntos, o provimento de um capelão em Câmara de Lobos, para celebração de missas e administração dos sacramentos. O donatário do arquipélago concordou, respondendo que deveriam pedir o dito capelão ao vigário da ilha.

 

FOTO: © ANABELA GOMES, SETEMBRO, 2025.

Perante este documento, podemos concluir que a paróquia de Câmara de Lobos foi estabelecida na segunda metade do século XV, depois de 1461, em data que, por enquanto, se desconhece.

O ANO INDICADO PARA A CRIAÇÃO DA PARÓQUIA ESTÁ INCORRETO. FOTO: © ANABELA GOMES, SETEMBRO 2025.

Uma lápide, colocada, há cerca de dois anos, na fachada principal da Matriz, tem a seguinte inscrição: «Paróquia de Câmara de Lobos / Com o orago de São Sebastião / Criada em 1430». A data está errada. Uma informação incorreta, à porta da Igreja, propaga o erro. Não fica bem e demonstra falta de conhecimento da história da freguesia. Basta pensar: se, em 1461, foi requerido, ao donatário, um capelão para Câmara de Lobos, é porque ainda não existia paróquia.

No ano de 1509, o vigário de Câmara de Lobos recebia 1000 rs em dinheiro, 4 moios de trigo e 1 tonel de vinho, além de seis onças de prata pela Capela do Infante.
Existia então a Capela do Espírito Santo, mandada construir por João Gonçalves Zargo nos primeiros anos do povoamento da ilha, num alto sobre Câmara de Lobos, conforme mencionou o cronista Jerónimo Dias Leite. Por certo, foi esta capela a primeira sede da paróquia.

A primitiva igreja paroquial foi edificada nos finais do século XV, tendo, como orago, São Sebastião, intercessor contra a peste. Em 1512, já era colegiada. Foi reedificada no início do século XVIII.

 

FOTO: © ANABELA GOMES, SETEMBRO 2025.

Era então Câmara de Lobos uma freguesia próspera, com abundantes canaviais açucareiros e vinhas. A atividade piscatória distinguiu-se desde o século XVII, tendo os pescadores e mareantes instituído a Confraria de São Pedro Gonçalves Telmo (Corpo Santo) em 1691, com sede na capela de Nossa Senhora da Conceição, onde há muitos anos guardavam a imagem do seu advogado.

 

FOTO: © ANABELA GOMES, SETEMBRO 2025.

Antes da criação da paróquia, Frei Gil de Carvalho fundou o eremitério de São Bernardino num lugar desabitado, por volta de 1459-1460, em terreno doado pelo mercador João Afonso, que havia recebido terras de sesmaria em Câmara de Lobos. Este modesto estabelecimento franciscano deu origem ao Convento de São Bernardino.

A freguesia de Câmara de Lobos pertenceu ao município do Funchal até 4 de outubro de 1835, data da eleição e instalação da Câmara Municipal de Câmara de Lobos.

Em 4 de março de 1930, ocorreu uma catástrofe em Câmara de Lobos, que a memória não conseguiu apagar por muitos anos. Nesse dia, uma quebrada no sítio do Rancho provocou ondas enormes. O mar invadiu a foz da Ribeira do Vigário, onde se encontravam muitas mulheres lavando roupa, acompanhadas de crianças. Do desastre, resultaram 19 mortes e diversos feridos.

No verão de 1935, foi estreado, nesta vila, um cinema ao ar livre, por iniciativa do empresário Quintal de Sousa. Tornou-se um espaço de diversão e educação para os câmara-lobenses.

ÓLEO SOBRE TELA. WINSTON CHURCHILL, CÂMARA DE LOBOS, THE FISHING PORT OF MADEIRA. JANEIRO DE 1950. NATIONAL TRUST, CHARTWELL.

Pelo Decreto Legislativo Regional n.º 17/96/M, de 2 de agosto, a vila de Câmara de Lobos foi elevada a cidade.

Atualmente as principais atividades económicas são a pesca, o turismo, a agricultura, o comércio e os serviços.

Aqui encontra-se o Museu de Imprensa da Madeira. Reúne importante acervo tipográfico, litográfico e cinematográfico e uma coleção de periódicos madeirenses. Foi inaugurado em 1 de agosto de 2013. Está instalado no edifício da Biblioteca Municipal de Câmara de Lobos, construído em 2009.

BRASÃO DA FREGUESIA DE CÂMARA DE LOBOS.

Segundo os ‘Censos de 2021’, a freguesia tinha 16 556 habitantes. Em relação a 2011, são menos 1430 residentes. Desde 1864 (4662), só em 2021 não se registou aumento da população. A idade média era a mais baixa da Região (39,5 anos).
O Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, regista 16 296 eleitores nacionais, 1 da União Europeia e 5 outros cidadãos estrangeiros residentes.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de ouro, roda de leme vermelho, entre dois lobos marinhos de azul, animados de vermelho e realçados de prata, afrontados; campanha ondada de verde e prata de cinco tiras. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “FREGUESIA DE CÂMARA DE LOBOS “. (Diário da República, n.º 100, 3.ª Série, Parte A, 24-05-2005).


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