
Nelson Veríssimo
O topónimo lembra os muitos lobos-marinhos, Monachus monachus, que existiam na baía e numa lapa, quando os povoadores portugueses aqui aportaram em 1420, numa viagem de reconhecimento da costa sul da ilha da Madeira.
João de Barros (1497-1562), na Década I, escreveu que «[…] ao tempo que João Gonçalves saiu em terra, era ela tão coberta de espesso e forte arvoredo, que não havia outro lugar mais descoberto que uma grande lapa: ao modo de câmara abobadada que se fazia debaixo de uma terra soberba sobre o mar. O chão da qual lapa estava mui sovado dos pés dos lobos marinhos que ali vinham retouçar: ao qual lugar ele chamou Câmara de Lobos» (L.º I, cap. III).
O apelido Câmara, que os descendentes de Zarco receberam, bem como o brasão, concedido pelo rei D. Afonso V em 1460, ao primeiro capitão do Funchal, estão relacionados com este lugar.
Não se conhece a data da criação da paróquia de Câmara de Lobos, mas é posterior a 1461. Neste ano, os homens-bons da capitania do Funchal escreveram ao Infante D. Fernando, requerendo, entre outros assuntos, o provimento de um capelão em Câmara de Lobos, para celebração de missas e administração dos sacramentos. O donatário do arquipélago concordou, respondendo que deveriam pedir o dito capelão ao vigário da ilha.

Perante este documento, podemos concluir que a paróquia de Câmara de Lobos foi estabelecida na segunda metade do século XV, depois de 1461, em data que, por enquanto, se desconhece.

Uma lápide, colocada, há cerca de dois anos, na fachada principal da Matriz, tem a seguinte inscrição: «Paróquia de Câmara de Lobos / Com o orago de São Sebastião / Criada em 1430». A data está errada. Uma informação incorreta, à porta da Igreja, propaga o erro. Não fica bem e demonstra falta de conhecimento da história da freguesia. Basta pensar: se, em 1461, foi requerido, ao donatário, um capelão para Câmara de Lobos, é porque ainda não existia paróquia.
No ano de 1509, o vigário de Câmara de Lobos recebia 1000 rs em dinheiro, 4 moios de trigo e 1 tonel de vinho, além de seis onças de prata pela Capela do Infante.
Existia então a Capela do Espírito Santo, mandada construir por João Gonçalves Zargo nos primeiros anos do povoamento da ilha, num alto sobre Câmara de Lobos, conforme mencionou o cronista Jerónimo Dias Leite. Por certo, foi esta capela a primeira sede da paróquia.
A primitiva igreja paroquial foi edificada nos finais do século XV, tendo, como orago, São Sebastião, intercessor contra a peste. Em 1512, já era colegiada. Foi reedificada no início do século XVIII.

Era então Câmara de Lobos uma freguesia próspera, com abundantes canaviais açucareiros e vinhas. A atividade piscatória distinguiu-se desde o século XVII, tendo os pescadores e mareantes instituído a Confraria de São Pedro Gonçalves Telmo (Corpo Santo) em 1691, com sede na capela de Nossa Senhora da Conceição, onde há muitos anos guardavam a imagem do seu advogado.

Antes da criação da paróquia, Frei Gil de Carvalho fundou o eremitério de São Bernardino num lugar desabitado, por volta de 1459-1460, em terreno doado pelo mercador João Afonso, que havia recebido terras de sesmaria em Câmara de Lobos. Este modesto estabelecimento franciscano deu origem ao Convento de São Bernardino.
A freguesia de Câmara de Lobos pertenceu ao município do Funchal até 4 de outubro de 1835, data da eleição e instalação da Câmara Municipal de Câmara de Lobos.
Em 4 de março de 1930, ocorreu uma catástrofe em Câmara de Lobos, que a memória não conseguiu apagar por muitos anos. Nesse dia, uma quebrada no sítio do Rancho provocou ondas enormes. O mar invadiu a foz da Ribeira do Vigário, onde se encontravam muitas mulheres lavando roupa, acompanhadas de crianças. Do desastre, resultaram 19 mortes e diversos feridos.
No verão de 1935, foi estreado, nesta vila, um cinema ao ar livre, por iniciativa do empresário Quintal de Sousa. Tornou-se um espaço de diversão e educação para os câmara-lobenses.

Pelo Decreto Legislativo Regional n.º 17/96/M, de 2 de agosto, a vila de Câmara de Lobos foi elevada a cidade.
Atualmente as principais atividades económicas são a pesca, o turismo, a agricultura, o comércio e os serviços.
Aqui encontra-se o Museu de Imprensa da Madeira. Reúne importante acervo tipográfico, litográfico e cinematográfico e uma coleção de periódicos madeirenses. Foi inaugurado em 1 de agosto de 2013. Está instalado no edifício da Biblioteca Municipal de Câmara de Lobos, construído em 2009.

Segundo os ‘Censos de 2021’, a freguesia tinha 16 556 habitantes. Em relação a 2011, são menos 1430 residentes. Desde 1864 (4662), só em 2021 não se registou aumento da população. A idade média era a mais baixa da Região (39,5 anos).
O Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, regista 16 296 eleitores nacionais, 1 da União Europeia e 5 outros cidadãos estrangeiros residentes.
Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de ouro, roda de leme vermelho, entre dois lobos marinhos de azul, animados de vermelho e realçados de prata, afrontados; campanha ondada de verde e prata de cinco tiras. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “FREGUESIA DE CÂMARA DE LOBOS “. (Diário da República, n.º 100, 3.ª Série, Parte A, 24-05-2005).
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