Nesta semana, na Assembleia Legislativa da Madeira, aconteceu mais uma cena mal-educada que em nada prestigia a Autonomia.
Um secretário regional desrespeitou a Assembleia com palavras obscenas dirigidas a duas deputadas e um deputado.
Tomando consciência do efeito mediático da sua insolência, agarrou-se ao dicionário. E disse: «Os termos que eu utilizei – foi mais do que um – estão no dicionário de língua portuguesa e, como se pode ver, são adjetivos que nós, com muita regularidade, utilizamos e que o léxico popular utiliza frequentemente. Qualquer cidadão refere aqueles termos com a velocidade que anda no seu dia-a-dia.»
O Dicionário não serve para desculpar a malcriação. A utilização perversa do Dicionário até pode enriquecer o vocabulário infame do malcriado.
Não sei qual foi o dicionário consultado. Poderia ser o ‘Dicionário de Calão’, de Eduardo Nobre, ou o da Academia das Ciências de Lisboa. Importante é ler sempre todo o verbete. Por exemplo, para «gajo», o Dicionário da Academia afirma ser um termo depreciativo: pessoa de fraca reputação, velhaca… E para «caralho», menciona ser vocábulo grosseiro. Ambos são substantivos e não adjectivos, como afirmou o secretário da Cultura. «Burra do caralho», dito para uma deputada, é ofensa grave. Pode ainda ser entendida como machista ou misógina. Não foi um aparte, mas um insulto.
Depois da pretensa justificação com o Dicionário, o secretário regional comunicou o seu lamento e as suas desculpas à presidente da Assembleia Legislativa da Madeira pelo sucedido na passada terça-feira. Atente-se: não apresentou as suas desculpas, mas comunicou-as. Por fim, afirmou que em «circunstância alguma quis ofender as senhoras e os senhores deputados ou a Instituição», concluindo que foram apartes, resultantes da tensão no debate do Orçamento da Região Autónoma da Madeira para 2025, «que normalmente decorrem num ambiente parlamentar.» Como se viu, não foram apartes.
Esta comunicação de desculpas, e não pedido, é bizarra. Faz-me lembrar aquele marido que ofende e maltrata a esposa e vai comunicar desculpas à sogra.
O pedido de desculpas, e não comunicação, deveria ser feito, em primeiro lugar, às ofendidas e ao ofendido, e só depois à presidente da Assembleia.
Pedir perdão revela humildade e consideração por quem foi ofendido. Comunicar desculpas é sobranceria.
Não é a primeira vez que situações desta natureza conspurcam as paredes da Assembleia Regional, sem que o seu presidente ponha ordem e respeito na casa da Autonomia. Noutros tempos, havia um líder parlamentar especialista em ofensas. Só que agora há as redes sociais, e o despudor de Eduardo de Jesus ultrapassou o Parlamento e a Região. Os noticiários nacionais repetem de hora a hora as bocas malcriadas do governante regional.
Como madeirense, sinto vergonha de, no governo da minha terra, estar alguém que se comporta daquela forma no órgão máximo da autonomia da Região.
«É o que temos!» – dizem os meus amigos. «É o que temos e o povo quer», acrescento eu. Contudo, as implicações desta cena de betesga são graves. Para além dos efeitos nefastos na sociedade regional, é mais um coice na Autonomia da Madeira.
A autonomia não se pode resumir a um rol de reivindicações apregoado em alta voz, como a revisão da Lei das Finanças das Autonomias, Sistema Fiscal Próprio, Continuidade Territorial…
A imagem dos governantes da Região tem influência no processo negocial e no aprofundamento da autonomia. Quem não se sabe comportar e se dar ao respeito perde a razão e compromete o futuro desta terra.
A imagem da Madeira, transmitida por estes políticos, e pela massificação do Turismo, terá, por certo, repercussões negativas no devir da Região.
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