A Festa é também um tempo de uma arte efémera, a da construção de lapinhas na nossa Região.
No presépio, recria-se o cenário do nascimento de Jesus e da adoração dos pastores e dos magos. Contudo, na lapinha madeirense a envolvente é de montanhas e vales, lapas ou cabanas, ribeiras, quedas de água e vegetação da Ilha, porque, afinal, a ilha projecta-se na representação da cena da Natividade.
Armar lapinhas é recriar um acontecimento, num tom ingénuo e criativo. É levar a Ilha para Belém e trazer o nascimento do Messias para a Ilha. Bem próximo de nós, na nossa casa, na igreja da freguesia ou no centro comunitário é que o Menino vai nascer.

Por outro lado, o observador, desfruta da liberdade de ver e interpretar a lapinha com o que a sua mente lhe proporcionar.
Nesse acto de criação, abundam referências ancestrais, das quais os construtores, provavelmente, não têm plena consciência, mas que a um olhar atento e culto não escapam.
Visitei duas lapinhas no Porto da Cruz. Na da Igreja Matriz, os poios da Ilha conduzem à manjedoura onde Jesus foi deitado, numa série de degraus que nos lembram a escada de Jacob, mencionada no livro do Génesis (Gn 28,10-19).
A ligação entre a Terra e o Céu, presente no sonho do patriarca, neto de Abraão, ocorre em diversas narrativas mitológicas e religiões.
Cristo serviu-se também da imagem da escada, para dizer a Natanael que Ele era o autêntico elo entre o Céu e a Terra: «[…] vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho da Humanidade.» (Jo 1,51).
Na Devoção Mariana, encontramos o título de ‘Nossa Senhora da Escada’, lembrando a apresentação de Maria no Templo: a menina que, sem ajuda dos pais, subiu os quinze degraus do Templo. Prenúncio de «quantas coisas estavam para vir.» (Evangelhos Apócrifos: Natividade de Maria, VI).
Na lapinha da Matriz, armada aos pés do altar-mor, os poios e a paisagem do Porto da Cruz configuram a paisagem do nascimento do Messias. A terra liga-se à divindade, num gesto ingénuo de gratidão e esperança de dádivas e prosperidade. Também aqui deslumbro aquele laço antigo, e sempre recriado, entre a Terra e o Céu.
Outro presépio, que mereceu a minha atenção, está no Centro Cívico do Porto da Cruz. Aqui há um pormenor curioso. Uma fortificação ou castelo junto de um lago e um par de amantes na torre.

Que pretende o Senhor António, o construtor deste presépio, com esta cena, entre muitas com movimentos cadenciados, de diversas actividades do quotidiano do mundo rural e dos ofícios? Não tive a oportunidade de questioná-lo para, com efeito, saber o seu propósito.
No entanto, aquela cena fez-me recordar o mito grego de Leandro e Hero.
Hero, jovem sacerdotisa de Afrodite (Vénus, na Roma Antiga) vivia numa torre da cidade de Sesto, na margem do Estreito de Helesponto. Leandro era um jovem da cidade de Abidos, localizada na margem do outro lado do Estreito.
Leandro, de noite e a nado, atravessava o estreito do Helesponto (actual Dardanelos, Turquia), que separava as cidades de Sesto e Abido, para se encontrar com Hero, guiado por uma luz que a sua amada acendia no alto da torre da sua casa.
A história de Leandro e Hero teve grande reflexo na Literatura. Diversos sonetos versam este tema, como os de: Garcilaso de la Vega (c. 1501-1536), ‘Passando o mar Leandro corajoso’; Sá de Miranda (1481-1558), ‘À morte de Leandro’; Camões (c. 1524 ou 1525-1579 ou 1580), ‘Seguia aquele fogo, que o guiava’.
Que faz este mito na lapinha? Estará mesmo lá? Não sei! Mas na lapinha cabe tudo o que a imaginação é capaz de criar e o que o visitante intenta descobrir.
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