Os leitores estão, porventura, apreensivos com este título. A palavra chalupa tem dois significados nos dicionários da língua portuguesa: chalupa, substantivo feminino – pequena embarcação com um ou dois mastros usada sobretudo para navegação de cabotagem. Chalupa: adjetivo masculino e feminino – depreciativo, informa que não está no seu perfeito juízo ou desequilibrado, maluco.
Já no dicionário de regionalismos madeirenses “Falares da Ilha”, Chalupas: sapatos mal-amanhados, a cair mal nos pés; “aquele tipo leva-me ali umas ‘chalupas’ que tão boas para deitar no calhau”.
Cabrita: barco de pequenas dimensões para desporto; pequena canoa.

Depois deste preâmbulo, e nas minhas conversas de café, tendo como cenário de fundo o tapume das obras da Marina do Funchal que nos impede de contemplar o mar, e o amigo Vítor Caires, com mar ou sem mar à vista, todas as conversas com ele divergem sempre para as atividades marítimas.
É um contador de histórias. Tem sempre uma história para contar. Na companhia do “velho Lobo do Mar”, recorda-nos as primeiras saídas para o oceano e a frase que ouviu em várias ocasiões: “Quem tem chalupa, precisa de uma cabrita”. Intrigado, perguntou ao seu comandante, o pai Caires, o significado da frase. “Quem tem chalupa, precisa de uma cabrita”, explicou o pai, era uma versão utilizada à beira mar com equivalência à frase “Quem casa, quer casa.” E pouco mais acrescentou, a não ser para escolher a cor da “cabrita” que pretendia lhe oferecer, se passasse o exame da admissão.

Nos anos 40, do século passado, havia em São Lázaro várias casotas para recolha de apetrechos náuticos e duas ou três serviam de habitação. Porém, por mais voltas que desse, Vítor Caires não descobria as cabritas. Havia galinhas, patos, cães, gatos e até um porquinho-da-Índia, que curiosamente compartilhavam os alimentos em harmonia, apenas surgindo algazarra quando se aproximavam gaivotas ou maçaricos. Quanto às “cabritas”, nada!
Afinal, uma “cabrita” era e é apenas uma canoa pequena, ou bote, muito utilizada no litoral madeirense. Um conjunto dessas “cabritas” não formava um rebanho, mas uma frota. Riso em coro.
Entre as “cabritas”, de vários tamanhos e feitios, a maioria com capacidade para transportar apenas uma pessoa, em equilíbrio precário, havia umas que tinham a configuração de barcos de pesca de Câmara de Lobos, nalguns casos, autênticas peças de arte, dignas de figurar em Museu Náutico.
Infelizmente, não restou uma única para a memória coletiva. Não existe nenhuma no nosso meu Etnográfico da Madeira. Navegar numa “cabrita” exigia perícia e para vará-la, o cuidado não chegava, era preciso também um certo carinho.

As chalupas, embarcações de recreio de menor porte, quando não tinham uma “cabrita”, utilizavam a “boleia”, que no mar significa “passagem”, através dos inúmeros barcos que rumavam a São Lázaro nas fainas de pesca e baleeiros, aos bomboteiros, barcos de refresco, bagageiros e até o “barco de registo”, uma canoa esguia com dois remadores e um guarda-fiscal, para controlar o movimento das embarcações na baía do Funchal, quando havia navios no porto. Os desportistas náuticos que não quisessem ficar no fundeadouro, dependentes de terceiros, sabiam a solução: quem tem “chalupa”, precisa de uma “cabrita”.
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