A propósito do 50.º aniversário do ‘25 de Abril’…

Os Abreus viviam nas furnas. Davam-se bem no Verão, mas no Inverno, com as constantes infiltrações de água era difícil, para famílias numerosas, dormir ou permanecer num espaço alagado.

A Agostinha tinha um telheiro de zinco, à beira do caminho, cozinhava junto à porta, com medo do lume, e fazia as suas necessidades na casinha, a meio do poio.

A Luísa e a Conceição lavavam na ribeira, a roupa do doutor e da sua família. Em dias de frio, uma delas não dispensava o grogue.

O Vicente, todos os sábados, ao fim da tarde, descia o caminho íngreme até à Quinta, carregando um cesto de vimes com semilhas e hortaliças, e a encobri-las ramos de flores, não fosse a vizinhança dar mau olhado. Assim estava combinado com o senhorio, e era todas as semanas, fazendo sol ou chuva. Mas a alcavala, que pesava sobre a terra que cultivava, também estabelecia a partilha da produção de vinho, da banana e a metade do porco pela Festa.

Os Serrões tinham sido despejados e há meses viviam debaixo de uma figueira.

A Maria Abreu furtava frequentemente couves da fazenda do meu avô, e eu, vendo, chamava-o à atenção, mas ele dizia, coitada, é uma pobre mulher, deixa para lá.

Manuel e Antoninho eram fiéis serviçais da Quinta e trabalhavam de sol a sol, interrompendo a lavra quando o sino tocava, a horas estranhas, para o almoço ou o jantar.

A Maria da Ponte, costureira de arranjos e coisas simples, vivia na casa de colmo, a única na minha vizinhança.

O José Baptista e o irmão, de Machico, cavavam descalços, de segunda a sábado, até um dia em que decidiram embarcar.

A Mariazinha aprendeu a ler com a minha avó e vinha à nossa casa pedir emprestado o Diário do dia anterior para ler notícias.

Muitos rapazes mais velhos do que eu estavam a combater na Guiné ou em Angola. Alguns tinham fugido para França.

Das colónias, enviavam-me aerogramas, contando proezas e misérias.

Li nomes conhecidos na coluna do Diário, dedicada aos mortos no Ultramar.

Da Guerra não escaparia, pensava eu. Afligia-se a minha mãe.

Luzia entrava em todas as casas, e ninguém lhe negava um café de cevada com leite ou um chá de ervas, enquanto fervia a seringa e a agulha para as injecções ou, simplesmente, vinha para conversar e recolher alguma coisa para os netos. Era a parteira e a enfermeira do sítio. Por ela, havia um respeito familiar, bem diferente daquele, distante, devido à professora de várias gerações, que, sendo já idosa, era sempre tratada por a menina.

Pela calada, comentava-se que o sapateiro era comunista. Nos arredores da sua casa, junto ao ribeiro, passavam, de quando em quando, uns engravatados. Alguns diziam ser polícias do Governo, que por ali andavam a vigiar. Outros achavam ser gente mal-encarada, e recolhiam-se em casa.

Todos do meu sítio. Pobres, mas com dignidade. Gente honesta. Eu também era mais ou menos pobre, ou talvez remediado. Estudava para professor, depois do sétimo ano do Liceu. (Muito me ri, nos últimos anos, de uns pobres de espírito que, no seu redil, não me consideravam da área da Educação, quando, muito antes deles, já eu frequentara um curso de Educação!). Como professor, iniciei a minha actividade, em regime triplo, numa escola instalada num velho solar em ruínas, do concelho de Câmara de Lobos. Eram somente três horas de escola para quase trinta crianças. Não havia salas e o número de alunos era grande. Não vinham descalços, mas quando chovia, o agasalho, para muitos, era uma saca de serapilheira.

Tudo isto parece não ter existido. Mas de tudo testemunhei.

É importante lembrar e estudar esse tempo de miséria, analfabetismo, opressão, repressão e obscurantismo, numa época em que a extrema-direita vai conquistando espaço e, de forma preocupante, com a adesão da juventude e assalariados.

«Primeiro entusiasmaram os idiotas e depois amordaçaram os inteligentes», é frase sugestiva atribuída ao filósofo Bertrand Russel, a respeito do fascismo.

O cenário real do meu sítio, de outros tantos também poderia ser, tais as semelhanças e circunstâncias.

Veio o ‘25 de Abril’, a revolução dos capitães, e a esperança de mudança de vida animou as pessoas. Ansiavam por uma vida melhor.

Consciência política era praticamente nula. Mas quem a detinha liderou e ajudou as causas do povo. E o povo saiu à rua para reivindicar.

É um período de tensões, não reduzíveis a questões da esquerda ou da direita. Lutava-se, sobretudo, contra a miséria e na expectativa de uma sociedade mais equilibrada, que resolvesse as principais necessidades do povo trabalhador.

Houve excessos, com certeza. Houve progressos, conquistas, sem dúvida. E tal se deve à movimentação popular, porque nada caía das mãos dos poderosos. Fossem eles proprietários de terras de colonia, industriais, comerciantes ou clérigos obedientes a um bispo que, em vez de apóstolo, se revelou um político conservador e reaccionário, cujo episcopado foi dominado pela intervenção em favor de uma força partidária, que arregimentou a velha e a nova guarda.

Uma Revolução não se restringe a mudanças de cadeiras. A de Abril foi de capitães, não de generais. Contou, bem cedo, com o apoio popular.  A Revolução tem a componente RUA. Sempre aí se travaram grandes lutas, debates e movimentações, com sucessos que a História regista e tragédias sangrentas que não podem ser esquecidas.

À História não pode escapar essa movimentação invulgar. O colorido e o ruído da rua precisam ser descritos, analisados e recordados. A liberdade e a democracia nunca estão definitivamente garantidas. Toda a atenção é diariamente requerida, para que a miserável ditadura não nos subjugue, de novo.

 


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