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A alegria é uma emoção primária, faz parte das cincos emoções naturais do ser humano e evoca uma espécie de inocência característica da infância.
O prazer da viagem é parte do sonho que provoca esse sentimento e nos leva não a uma fuga, mas à procura dum qualquer encantamento, uma espécie de elixir ou filtro mágico, que estimule a curiosidade por novas experiências e lugares. Os habitantes das ilhas são de certo modo migrantes da aventura e o que procuram não é em si mesmo um fim ou uma meta, mas um processo dinâmico de desenvolvimento pessoal e de abertura à variedade do mundo.
Mas sair da ilha não significa ausentar-se ou esquecer a terra que é nossa por pertença de sangue. O fluxo da vida parte duma raiz telúrica que marca a existência de todos nós, impreterivelmente. Por mais que o mundo dê volta aos nossos hábitos e convicções, cada um transporta consigo uma cosmologia de sensações deixadas pela infância e se reflecte no funcionamento da psique. As crianças felizes, com o passar do tempo acusam, na idade adulta, o reforço desse fluxo e o reconhecimento dessa raiz. Quando a viagem nos apela e o horizonte nos impele o passo para a distância, todas as aprendizagens acrescentam um sentimento de alegria àquilo que Bachelard chamou «a nossa infância real e permanente».
É por isso que os caminhos da serra serpenteando em áreas inóspitas longe dos povoados, me provocam a sensação dum regresso a um tempo feliz e me surpreende alegremente o encontro com as pequenas aldeias onde o mundo não está ausente, mas vive e agita-se no sonho diário dos que amam a terra e as suas origens e por ela trabalham.
Jueus, aldeia a sul do Caramulo, aninhada numa vertente pedregosa da serra, rodeada de matas e giestas, é uma delas. Pouco mais de uma vintena de pequenas casas avultam entre fragas e espigueiros, alindadas pelo zelo dos seus habitantes e olham as faldas que se estendem na direcção de Malhapão, ou Almofala, outras aldeias semelhantes, onde é notória a presença da emigração. Algumas casas inicialmente de pedra têm agora as fachadas revestidas, pintadas de cor clara. Quem parte volta sempre à respiração do ar puro da serra e por ali espera que o tempo mude, a favor da estase da saudade. Pela estrada romana de três quilómetro em perfeito uso da população, deslocam-se mansos bois e cabras que pastam nos pequenos prados em declive.
Mas Jueus distingue-se das outras aldeias por contar com um zeloso guardador que, de volta da Guiné onde serviu o exército, imaginou dar-lhe nova vida, fazê-la crescer para agregar ali os filhos e a sua descendência. José Longra, um ancião robusto e lúcido, recebe-nos à porta do seu restaurante, convida-nos a entrar e conta-nos de alguns projectos que incluem a aquisição da Pousada do Caramulo transformada num confortável hotel, a recuperação de três casas de pedra que contempla o turismo de habitação e a Casa do Lagar Miradoyro, ao serviço dos viajantes que ali se deslocam por uma estradinha estreita, serra adentro, para a indispensável refeição. José Longra convocou os filhos e a filha emigrante em França e propôs-lhes os seus planos, que foram aceites. Todos assumiram a responsabilidade dos vários empreendimentos. Dos dez netos, oito frequentam a escola básica no Caramulo, e dois deles, jovens universitários, preparam-se para um futuro ainda imprevisível, mas são, neste momento, a esperança de uma possível continuidade dos projectos de um avô inteligente e empreendedor. José Longra é um homem feliz, com a família à volta, laboriosa, competente, oferecendo trabalho, dando mais vida à vida da aldeia.
O Caramulo é, por agora, um lugar quase desactivado pelo desaparecimento dos antigos sanatórios, mas quem lá vive espera que as novas gerações e o empenhamento político do país, revertam o seu estado de quase desertificação. O seu museu guarda um espólio riquíssimo de Arte Contemporânea e os exemplares das belas máquinas que galgaram kilómetros e Kilómetros e atestaram, desde o início do sec XX, o desenvolvimento de uma tecnologia avançada, expõem-se orgulhosas, no sector destinado ao Automóvel. São frondosas as suas matas de flora centenária, bons acessos por óptimas estradas e está a caminho a construção dum museu para memorizar a actividade termal e sanatorial que, em épocas passadas, tão útil se tornou para a saúde das populações. Os ares da serra continuam puros e os seus poucos habitantes reconhecem o valor deste benefício.
Tondela fica perto, depois de se atravessar o fecundo Vale de Besteiros. Possui também um belo museu territorial, instalado no Solar de Santa Ana e contém um acervo que abrange temáticas diversificadas, desde resquícios arqueológicos, da pré-história à época medieval, com destaque da actividade bélica pelo uso das «bestas», à ocupação romana, artes e ofícios tradicionais e trabalhos agrícolas. Agrega também núcleos museológicos locais, com as antas e moinhos e referências à Estância Sanatorial do Caramulo. Tondela (a pequena Tonda), lá está sob a égide duma lenda que lhe dá um cunho mítico-poético. Diz-se que uma mulher, no cimo dum monte, no tempo das investidas dos Mouros, tocava uma trompa para que fosse ouvida no vale e os besteiros se reunissem ao «tom dela» em defesa do território. Essa figura mítica tem honras de heroína e está representada no topo da Fonte das Sereias e numa escultura em Santa Comba Dão.
Estas são terras serranas no interior dum país que mal as conhece, cuja população além da cortesia, é extremamente amigável, quase familiar, duma simpatia notável, desde os habitantes das aldeias mais distantes, às recepcionistas dos museus, duma inegável qualidade.
Alegremente, é o modo como se percorrem estes lugares.
E vem à memória o mar distante a envolver as ilhas, longe deste céu continental, mas tão português, como elas; as ilhas que conciliam as alegrias da infância, tal como hoje, por serras e córregos, frescura de frondes e ânsia de horizontes.
Agosto,2023 Irene
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