“O espírito da paz duradoura é a somo de todas as tentativas conscientes de atingir a paz, transcendendo diferenças nacionais, culturais e religiosas, assim como o próprio tempo”
Stella Ghervas in À conquista da paz (p. 351)
Francisco I – o regresso do Cristianismo ou a nova geopolítica do Vaticano
A Jornada Mundial da Juventude 2023, realizada em Lisboa, terminou com um “tsunami” de emoções, de vivências e de experiências, sentido com o Papa Francisco I e contagiado pelas suas muitas mensagens, o seu sorriso imperdível e a expressão das suas causas.
I – As bases de um entendimento para o futuro
Das palavras do Papa, como aliás, alguns comentadores salientaram, emana uma ideia muito clara de futuro, da urgência da mudança de atitudes e de políticas, de políticos também. Francisco I enuncia um projeto de e para a Humanidade, para o seu Bem.
Trouxe discursos escritos que “trocou” por reflexões dialogadas, socráticas. Ao implicar os seus interlocutores nos seus discursos, cativou – para sempre – todos quantos o ouviram e quiseram escutar. Interpelou e colocou-se ao lado, propôs em comunhão. Desses diálogos, da sua simplicidade, decorre uma leitura atenta e crítica aos Evangelhos, um rasgar convicto dos anos “barrocos” e um retorno, quase (sublinhe-se quase) calvinista à figura de Cristo. A exigente depuração do discurso do Papa Francisco I decorre de uma interpretação do mundo, dos seus profundos desequilíbrios, da ausência de solidariedade entre os povos e interpovos que resulta em níveis de pobreza extrema, do ruído inaudível das margens que acolheu no Bairro da Serafina, do olhar de esperança, daquelas pessoas que, sabe muito bem, morrerão com ela.
Francisco propôs o retorno à ideia de Cristo como acção, como projecto transformador das sociedades, como o último reduto de contraponto às ideologias neocatastrofistas, distópicas e cuja principal função é a de atrair os jovens para um estado de resignação anómica. O lema da Jornada “Maria levantou-se apressadamente e partiu”, paradigma da proposta do Papa, consubstancia uma cartografia da acção, da necessidade de “sujar as mãos” e de colocar-se ao serviço de amanhãs melhores.
O planeta está ameaçado por conflitos que exibem índices de violência e de desprezo pela vida humana que julgaríamos parte de uma História à qual não regressaríamos. A indiferença e o descuido relativo à casa comum têm acentuado um processo de diminuição da qualidade de vida na Terra, de desperdício dos seus recursos e de atentado às suas (cada vez mais escassas) riquezas.
A ideia do retorno a Cristo, como utopia social, como humanismo, à qual Francisco I se mantém fiel e que sustenta como fundamento e como motor, foi persistente nos seus discursos de inclusão, de apelo ao acolhimento de todos e, sobretudo, na permanente convocatória ao retorno e ao respeito pelas nossas origens, pelos nossos antepassados, pelos nossos Avós. Francisco reivindica a religião como um acervo cultural que os jovens, protagonistas destas jornadas, devem preservar e legar, qual tesouro, às gerações que lhes sucederão. A força da vocação crística deste Papa revela-se em cada gesto, em cada palavra, em cada desafio. Refiro, principalmente, o desafio do silêncio, no quadro de um mundo que não se ouve nas suas diferenças e que se deixa contaminar pelos ruídos inúteis do que não edifica, não contribui e não constrói. O Papa quer jovens activos para o Bem comum, fazedores e não espectadores de uma realidade que se revele inevitável na sua autofagia. Francisco I quer jovens revolucionários, empenhados e dispostos a não ceder aos facilitismos ideológicos dos “sábios do teclado”. Contagiar com a alegria, como missão.
II – A subversão da esperança, no quadro das incertezas globais
O Papa é chefe de Estado. Do Cristianismo, a Europa herdou os seus valores fundacionais. Uma ecologia política sustentável, tem – segundo Francisco – a marca do ecumenismo e do diálogo inter-religioso. Tem a marca da Paz. Como fazê-lo?
Segundo o Open Doors’ World Watch List, 312 milhões de cristãos sofrem, no mundo, um elevado risco de perseguição. Esse risco, geograficamente acentuado em alguns países da América central, numa significativa maioria dos países de África, duplica na Ásia. Cinco mil e seiscentos cristãos assassinados, duas mil cento e dez igrejas atacadas e/ou destruídas, quatro mil e quinhentos cristãos encarcerados, são os números do ano que corre. O impacto desta estatística, na escolha do lugar onde se celebrará a próxima Jornada, tem de ter sido preponderante. Seul, na Coreia do Sul, levará para a Ásia a centralidade da nova geopolítica do Vaticano e procurará, nesse contexto, a construção das bases fundadoras de uma cultura de paz e de não-agressão. Quarenta anos após a sua criação, pelo Papa João Paulo II, as Jornadas Mundiais da Juventude, parecem ter recuperado, em Lisboa, a sua função de disseminação da Fé cristã, agora numa era pós-covid e em plena mutação do xadrez global a partir da guerra perpetrada pela Rússia, contra a Ucrânia e no quadro de uma luta desenfreada pela tomada de poder, nos diversos países ricos de África que remete os seus povos à mais profunda pobreza. Os perigosos jogos geopolíticos entre os Estados Unidos e a Rússia, agora vulnerável ao poder chinês, exigem do Vaticano uma acção diplomática cujo exercício se tem revelado complexo, dado o fanatismo extremista do responsável pela Igreja Ortodoxa russa. Colocar o foco geopolítico no eixo indico-pacífico, a partir da zona euro-atlântica, faz de Francisco I o principal protagonista de uma ambição global de paz, mas também, um corajoso empreendedor de uma certa “real politik” a que não se assistia, por parte do Vaticano, desde João Paulo II (salvaguardadas as devidas diferenças e, até, o quadro político de então). Não foi o Papa Francisco que desafiou os jovens ao “concreto”?
A Jornada Mundial da Juventude, na Coreia do Sul, em Seul, terá lugar em 2027. Até lá, uma profunda mobilização ocorrerá nessa geografia, não esquecendo que, para o Papa Francisco, o ano de 2023, para além destas Jornadas de Lisboa, representa ainda a celebração dos dez anos do seu Pontificado. Este ano fica, igualmente, marcado pelo Sínodo sobre o futuro da Igreja.
III – De Lisboa, a saudade
Termino esta breve reflexão com o registo da saudade de Francisco e da sua desconcertante simplicidade, no trato e nas palavras, da sua convicta esperança nos jovens que participaram, nestas jornadas, e da sua generosa paciência. Creio que não esquecerá a magnitude e o profissionalismo irrepreensível da organização, os detalhes de inovação e uma “Via Sacra” original, moderna e … melhor que tudo, jovem. A organização destas jornadas merece, por isso, todos os elogios possíveis, isto para além de um acompanhamento absolutamente inovador, na “app” desenvolvida para o efeito.
Registo, ainda, a multiplicidade de eventos, de momentos de reflexão, de concertos e de manifestações performativas.
Finalmente, gostaria de referir a expressão de dor e de perdão do Papa face aos erros de alguns que mancham o trabalho de tantos, a sua marcante empatia com as expressões do sofrimento, a teimosia em trazer, para a primeira página, as dores sociais das margens e das periferias.
Como nota de rodapé, seja-me permitida uma observação mais pessoal. O que fez, então, uma sexagenária nestas Jornadas? Escutei o Papa e os peregrinos de tantos países. Deixei-me deslumbrar pela bondade de muitos gestos e pelas orações. Escutei os jovens. Escutei a sua voz. Ninguém precisa de conceder-lhes o que lhes pertence. Valeu.
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