Vivo num mundo de arco-íris e unicórnios. Foi o que me disseram esta semana.
A conversa começou, estranhamente, pela criptomoeda, sobre o que sei praticamente nada, a não ser que tem flutuado histericamente ao sabor das mudanças de humor do Elon Musk.
Passou depois – não me lembro da linha de raciocínio – para “o mundo está completamente em pantanas, uma coisa verdadeiramente assustadora”. Frase bordão, de conversa de elevador, a que se lança mão logo após falar do tempo, como anda estranho, que tanto dá sol como dá chuva.
Uma daquelas coisas que, por ser repetida à exaustão desde tempos imemoriais, só vale pelo somatório das suas letras.
É preciso perceber que o meu interlocutor nesta conversa, o declarante desta frase vazia, é das pessoas mais inteligentes, informadas, críticas e fora da caixa – para não dizer completamente estranho – que conheço. Ser meu primo é pura coincidência.
Admiro-o desde que me lembro. Por razões mais sérias e outras menos. Se não fosse por ele, por exemplo, teria passado a pré-adolescência a ouvir Bryan Adams em vez de Guns N´Roses.
Daí ter estranhado este gigante cliché que ele lançou via Whatsapp.
– Por alguma razão em especial? – perguntei-lhe.
– Onde tens andado? – respondeu, seguindo com a tal tirada dos arco-íris e unicórnios.
Sem papas na língua. Novamente, ser meu primo é pura coincidência.
Depois fundamentou porque o disse. Aí já fiquei mais descansada. Por momentos temi que tivesse migrado para a horda dos desenxabidos.
Debitou uma longa e penosa lista, a guerra cultural do Ocidente, com epicentro nos Estados Unidos, as demonstrações de força entre Reino Unido e França por causa da pesca no Canal, (mais um) calcanhar de Aquiles do pós-Brexit, a faixa de Gaza, Ceuta e as movimentações geopolíticas da China.
Não me disse nada que não soubesse, sobre o qual não lesse ou que não me ocupasse o pensamento. Se bem que, no que se refere à política americana dá-me dez a zero. A um, vá.
Demorei dois dias a responder.
Vivo mesmo num mundo cor-de-rosa? Ou vive ele num mundo negro?
Há meses que não me calo com a China. Não, não acho que fabricaram o vírus em laboratório, porque também não acho que a terra é plana e que o Bill Gates põe chips nas pessoas através das vacinas. A minha preocupação é simultaneamente mais verosímil e alarmante.
A China está a agigantar-se. Impunemente. Tem as suas unhas afiadas cada vez mais cravadas em Taiwan e Hong Kong. Tem criado ilhas artificiais recheadas de armamento no Mar do Sul da China, que entende ser seu exclusivo quintal e onde passa um terço do comércio mundial de mercadorias. Coisa pouca e irrelevante. E nos direitos humanos, aquilo que se sabe. Basta ver o que tem acontecido com a minoria Uigur.
Enquanto isso, a comunidade internacional, nada. Nada vê e nada quer ver. Mas está muita gente a ver. Rezo para que, no que se refere à China, não sejamos nós Cassandras dos tempos modernos.
As imagens da faixa de Gaza são inqualificáveis. Enquanto se discutia quem teria razão, como se o mundo fosse a preto e branco, enquanto se escolhiam lados, como se de equipas de futebol se tratasse, enquanto se analisavam as diferenças entre antissemitismo e antissionismo, morriam pessoas. Cento e setenta adultos. Sessenta e seis crianças. Repito, sessenta e seis crianças.
Ceuta. Tudo errado.
Começa com um pedido argelino ao governo espanhol para que recebam o líder dos separatistas saarauís da Frente Polisário, Brahim Ghali, para ser tratado à Covid-19. Pedro Sánchez, encurralado entre a dependência energética da Argélia e o controlo de fronteiras exercido por Marrocos, decide, numa tática de avestruz, que aquele seria admitido num hospital espanhol sob um nome falso. Não só tenta enganar Rabat como a própria justiça espanhola, onde decorre processo judicial contra aquele defensor da autodeterminação do Saara Ocidental por tortura.
Marrocos descobre. Obviamente. Irados, abrem fronteiras para o enclave espanhol de Ceuta. O resultado dantesco foi aquele que se viu. Mais de oito mil migrantes passam as fronteiras sem obstáculos. Pior, são exortados a isso. Dizem-lhes que as fronteiras estão abertas para a Europa, onde os espera uma vida muito melhor. Desesperados com as paupérrimas condições de vida, que pioraram ainda mais com os efeitos da pandemia, arriscam a sua vida. Às crianças dizem que, se atravessarem, podem ver o Cristino Ronaldo jogar com Lionel Messi. São centenas de crianças, à fome, sós, a deambular em Ceuta. Crianças da idade da minha filha.
Como se pode fazer isto? Usar pessoas como se fossem nada. Meros peões sem qualquer valor intrínseco. Crianças como se fossem brinquedos estragados. Como?
E pensei e pensei em tanta coisa má.
Quando respondi, passados os tais dois dias, foi isto que lhe respondi. Talvez não tenha sido exatamente isto, mas era isto que queria dizer. O tal esprit de l’escalier.
Sei. Vejo. Sofro. Queria muito que estes horrores, como tantos outros, não acontecessem. O mundo pode ser e é muito negro.
Mas não pode ser essa a sua única cor.
Se nos focarmos só nisto, vezes e vezes sem conta, nos níveis requintados de malvadez que o Ser Humano consegue atingir, nas preocupações e ansiedade que o panorama mundial justificadamente nos merece, nas desgraças que grassam por esse mundo fora, colapsamos. Se tomarmos estas dores como nossas, sem filtros, enrolamo-nos em posição fetal e definhamos.
E não conseguiremos ver o abraço que Luna, a voluntária da Cruz Vermelha, deu ao exausto e desesperado migrante, o salvamento do bebé de dois meses pelo agente da Guardia Civil ou mesmo que os palestinianos e judeus – não os políticos, mas os meros mortais – até conseguem coexistir pacificamente há anos.
Não conseguiremos sentir os prazeres das pequenas coisas. De um banho quente. Das primeiras cerejas da estação. De um gesto de amor puro.
Egoísta? Egocêntrico?
Provavelmente.
Mas a alienação, na dose certa e sem deixar de ver para além de nós, é estratégia milenar para o desenvolvimento pessoal e da própria espécie.
O mundo é negro. É.
Mas também podemos colorir parte dele com lápis de cera.
E, de vez em quando, até nos podemos dar ao luxo de lhe colarmos autocolantes.
Cor-de-rosa, com desenhos de arco-íris e unicórnios.
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