Doentes não Covid-19 passam para segundo plano em patologias que não podem esperar, denuncia o Bastonário da Ordem dos Médicos

O Bastonário da Ordem dos Médicos trouxe a público, num texto publicado no site da organização de classe, uma situação que constitui, sem dúvida, motivo de reflexão para os responsáveis da Saúde, tanto a nível nacional como a nível regional, tendo em conta que o relato feito por Miguel Guimarães estará assente, como outra coisa não seria de esperar, em elementos rigorosos que lhe permitem estas afirmações.

“O excesso de morbilidade e mortalidade e algumas situações concretas de doentes, mostram que, infelizmente, os doentes não COVID-19, por falta de estratégia e organização da tutela, estão a ser relegados para segundo plano em patologias que não podem esperar. Por exemplo, o diagnóstico, tratamento e/ou seguimento com exames complementares de doentes oncológicos, de doentes transplantados ou a aguardar transplante, de doenças neurológicas, de outras doenças crónicas como doenças autoimunes, insuficiência cardíaca, DPOC, doenças inflamatórias intestinais, insuficiência renal, diabetes, etc., doenças que podem descompensar rapidamente, em doentes com medo da COVID-19 e sem alternativa fácil a cuidados de saúde”, refere o Bastonário.

Miguel Guimarães reconhece que “o combate à pandemia da COVID-19 obrigou a uma reorganização dos hospitais e centros de saúde, o que passou pelo adiamento de exames, consultas e cirurgias programadas. A própria Ordem  dos  Médicos  recomendou,  desde  o  primeiro  momento,  que  fosse  feita uma reprogramação das agendas, salvaguardando os casos prioritários ou urgentes. Temos noção que numa pandemia como a que estamos a viver é impossível conseguirmos manter toda a atividade normal e responder aos doentes com COVID-19 no SNS. Aliás, nem seria prudente ter os médicos e restantes profissionais totalmente tomados pela atividade programada “normal” e com risco acrescido de eles próprios contraírem o novo coronavírus. Mas também não podemos aceitar que se esteja a fazer uma gestão meramente política desta pasta, em que parece que só os números da pandemia importam e todas as outras doenças e mortes deixaram de existir”, afirma o bastonário da Ordem dos Médicos”.

Aquele responsável pela Ordem revela que “alguns dados vindos a público esta semana indicam que houve um crescimento sustentado da mortalidade ao longo do mês de março. Os dados da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do CINTESIS referem uma subida de uma média de 297 mortes por dia nos primeiros sete dias de março, para uma média de 352 mortes por dia nos últimos sete dias. O ano de 2020 teve por isso os últimos dez dias de março com mais mortes dos últimos 12 anos — 3471. Já os dados da London Business School alertam para mais 984 mortes entre 16 de março e 3 de abril, sendo que só 266 foram oficialmente atribuíveis ao novo coronavírus”.

Ao mesmo tempo, segundo o Portal do SNS, refere, “no recurso a urgências hospitalares assistiu-se a uma quebra muito significativa. Só em março, registaram-se menos 246 mil episódios de urgência em relação ao mesmo mês do ano passado e menos 181 mil do que em fevereiro”.

Miguel Guimarães lembra que “muitos dos exames complementares de diagnóstico e terapêutica de doentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS), fundamentais para diagnóstico, estadiamento e tratamento de várias doenças, eram feitos através de convenções com os setores privado e social, que também viram a sua atividade reduzida com encerramento total ou parcial de várias unidades de saúde (hospitais e clínicas) e, com o próprio SNS a requisitar profissionais que acumulavam atividade pública e privada, impedindo os médicos de exercer fora do serviço público. Isto significa que nos próximos meses podemos também ser confrontados com diagnósticos tardios, por exemplo de casos oncológicos, com impacto na possibilidade de tratamento e de cura”.

O Bastonário defende ser “urgente que o Ministério da Saúde crie uma task-force, eventualmente a funcionar junto da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), que monitorize com muita transparência e seriedade o que está a acontecer aos outros doentes e que faça contactos diretos para que ninguém fique perdido. Os danos que a COVID-19 está a infligir na nossa sociedade já são suficientemente cruéis para podermos aceitar ainda mais danos colaterais”, reforça o bastonário”.

Miguel Guimarães lamenta que a tutela não tenha acolhido a proposta da Ordem dos Médicos, feita logo no início de março, de ter hospitais públicos e privados ou áreas específicas bem delimitadas dentro dos mesmos apenas dedicados à COVID-19, até para reforçar a confiança dos outros doentes de que poderiam ir em segurança aos hospitais que não recebessem doentes infetados. Da mesma forma, não foi feita atempadamente uma articulação e integração com o setor privado e social, para minimizar o impacto nos doentes com problemas não relacionados com a pandemia.

Recorde-se que, no caso da Madeira, as autoridades de saúde estabeleceram desde logo uma área destinada aos doentes Covid-19, dentro do Hospital Dr. Nélio Mendonça, sendo que recentemente foram criados espaços junto às Urgências, que visam acolher os doentes que chegam à unidade hospitalar enquanto aguardam o resultado do rastreio à Covid-19, que ali é feito a todos os doentes.


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