Na Saúde manda quem pode…

O problema de falar da Saúde não tem propriamente a ver com a Saúde na sua vertente mais técnica e de defesa do utente, mas sim com a Política. Não, não falamos da Política de Saúde, antes fosse. Falamos da outra, daquela em que alguns pensam que os cargos são suporte e conhecimento técnico suficientes para opinarem e decidirem sobre tudo. Uma espécie de nomeados para todo no serviço, qualquer coisa como sabendo nada de tudo. Conhecimento mínimo, confiança máxima. E quem sabe disso, sabe que os dedos da mão não chegam para contar quantos. De muitas mãos e de muitos pés. O resultado é o que se vê.

É preciso falar da Saúde, é importante falar e debater a Saúde, através de quem sabe de Saúde, respeitando as escolhas políticas para o que é político, mas enquadrando devidamente as escolhas técnicas para aquilo que deve evoluir do ponto de vista técnico, naturalmente com a supervisão dos organismos tecnicamente competentes. Os políticos devem decidir sobre outras coisas, como por exemplo sobre as condições para que os técnicos possam trabalhar. Devem respeitar esses técnicos mesmo que politicamente não gostem. Mas isto é de difícil entendimento, sabemos bem. É mais fácil uma notícia para um lado, outra para o outro e está feita a “folha”.

Claro que a Política não gosta, mete-se, faz uma infiltração correspondente ao que é, normalmente de quem não sabe do assunto que deveria ser essencialmente técnico, desastrosa está bom de ver. E quando a política se mete nisto desta forma, está o caldo entornado. E então quando a Política se confunde com o Poder, meus amigos, é de bradar aos céus perante a dimensão de tanto “elefante numa loja de loiça”. Por isso é que se viu tanta “loiça partida” durante a anterior legislatura regional neste domínio da Saúde. Por isso é que, mesmo numa outra legislatura, só agora houve decisão sobre o novo diretor clínico e já anda tanto “caco” no chão.

A legislatura é outra, os poderes são outros, as negociações políticas meteram-se nas escolhas técnicas. E pronto, está tudo explicado. Só podia dar nisto. Tudo pelo poder, um manda na administração, outro na direção clínica, como se a Saúde fosse, em si, uma negociação. A Saúde não deve ser, mas a Política é, por norma, assim. Estão garantidos quatro anos de governo. Não se sabe se são quatro anos para a Saúde ou quatro anos de melhor serviço para os doentes, mas de governo (quase) garantidamente que é. Este está safo, o próximo logo de vê.

O problema da Saúde, desta Saúde “negociada”, esteve numa clara inabilidade política, que parece até ter ido além da própria tutela direta, que como se sabe gere esta dupla sensibilidade de ser médico e político ao mesmo tempo. Tem vantagens pelos conhecimentos técnicos, tem desvantagens sempre que esses conhecimentos entram em confronto com estatísticas e pessoas que a política utiliza para justificar determinadas escolhas conjunturais, de acordo com o objetivo político, o que para o responsável direto do setor, como profissional de carreira mais do que feita, não deve ser muito fácil, neste enquadramento, às vezes, de defender o indefensável.

Neste caso concreto, a inabilidade começou pela indicação do primeiro nome. Se era fruto de uma negociação, foi mal conduzida, não estancou um problema que envolvia uma alteração substancial ao nível do SESARAM, o que por si só criava condicionalismos à partida, que eram evitáveis, até para salvaguardar que o nome da profissional não seria discutido na praça pública, como veio a acontecer, com os reflexos e reações que se conhecem. Podiam querer muito a médica, mas primeiro avaliavam os prós e os contras e depois traziam para a praça pública. Nunca poderiam ter permitido que o conselho de administração avançasse com um procedimento de consulta naquelas circunstâncias. Só se alguém permitiu e não se sabe…

Depois, segunda inabilidade, vir a público de “peito aberto” garantir que o acordo de governo ia ser cumprido como que colocando esta escolha técnica num patamar estritamente político, abrindo por sua vez uma outra “frente” de discussão relativamente à forma como, em termos processuais, deveria ser formulada esta questão e a respetiva nomeação, com os riscos de colocar em causa até o próprio papel do conselho de administração do Serviço de Saúde, que já sabemos qual é, mas não era preciso deixar assim tão exposto na praça pública. Quem manda é o governo, o resto são acessórios. Só que este governo começa a ter muitos acessórios, começa a ser muito “stock”.

O que está a contecer, com a figura do Dr. Mário Pereira, é que o médico, que deveria estar ser avaliado do ponto de vista exclusivamente técnico e de perfil para o cargo, está na praça pública por todas a razões menos pelas técnicas. Pelas movimentações iniciais que davam conta do incómodo de estar no Parlamento, atendendo à voz crítica sobre a Saúde regional, no anterior mandato, passando pela posição de “apoio técnico” à Dra. Filomena Gonçalves, e finalmente, depois de concretizada a sua saída da Assembleia, a nomeação para diretor clínico. Resultado, a reação dos médicos foi inevitável, dos que deram a cara e dos outros. A forma, mais do que o contéudo, foi posta em discussão, num claro cenário em que o clínico do CDS já entra com muita gente de pé atrás. E agora com demissões concretizadas em larga escala.

E assim se explica a reação de que o Dr. Mário Pereira será nomeado porque sim. Certamente que o médico, escolha do CDS, cuja competência, enquanto pessoa e técnico, não está em discussão, gostaria de ter sido nomeado sem ser através de “murros na mesa” de quem manda. Nem de ser preciso, quem manda, dizer que manda.

Mas pronto, manda quem pode. E fica com a “batata quente na mão” quem pede…


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