Todos perderam alguma coisa

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnSim, não vale a pena fazermos grandes “ginásticas mentais”, todos os partidos perderam alguma coisa nas últimas eleições regionais. Podem fazer as leituras que quiserem, podem desenvolver as habituais diatribes político partidárias, que servem mais para dentro do que para fora, mas todos, todos mesmo, devem parar para refletir sobre o que aconteceu, cada um à sua maneira, com diferentes proporções e implicações. Já agora deixem passar as eleições nacionais e reflitam tudo de uma vez.

Claro que o PSD ganhou as eleições, ainda que perdendo votos, poucos é certo, relativamente a 2015, mas perdendo, além de perder deputados no Parlamento e, com isso, a maioria absoluta, o que é histórico por nunca ter acontecido. Mas vem perdendo mais na globalidade dos atos eleitorais. Mas nestas legislativas regionais, ganhou em termos globais e isso chega, a democracia é assim mesmo. Perde espaço, perde hegemonia, perde a grandeza que tinha, mas foi o partido mais votado.

Se vai refletir sobre os milhares de votos perdidos nos últimos anos, isso é outra coisa, dava para um livro ou para vários daqueles suplementos à medida e dava para Albuquerque agradecer a uns “renovados” que deitaram “betão” na engrenagem para ajustar certas contas das quais fizeram parte e muito beneficiaram com isso. Chegou a tempo o com a “infleção”, com estes dois últimos anos de mandato sempre à procura da “simpatia perdida”. Agora, é refletir e ver quanto custou aquela brincadeirinha dos primeiros dois anos. E fazer o que deve ser feito.

Outra situação que ficou clara foi que o PS de Cafôfo subiu estrondosamente a votação, relativamente ao PS anterior. Ganhou muitos votos e deputados, mas perdeu a possibilidade primeira de atingir a vitória e governar. Era mais ou menos o agora ou nunca, houve mobilização, concentração de votos. Não foi suficiente. Ponto final. Ao concentrar os votos, enfraqueceu quem o podia ajudar, o JPP, o Bloco e a CDU. Não se pode ter tudo. Divisões à parte, no seio da família socialista, que existiram por muita unidade apregoada, foi um quase e para Cafôfo uma “conquista meia amarga”. Vamos a ver o “fôlego” que se segue.

Agora, o PS também precisa de refletir. E numa primeira análise, pode haver quem ache desnecessário dizer a um partido que elegeu 19 deputados e que registou uma subida daquelas, para refletir. E realmente, se não houvesse algumas situações a considerar, para quê refletir se não fosse no brilhante resultado? Mas sabemos que há algumas considerações a fazer, desde logo a existência de certas dúvidas se este resultado é efetivamente eleitorado que vai ficar fiel ao PS ou se foi uma mobilização conjuntural de apoio a Paulo Cafôfo, um último esforço de uma faixa do eleitorado de vários lados que pretendia retirar o PSD do poder, na Região, e que viu em Cafôfo, mais do que no PS, a possibilidade de atingir esse objetivo. Talvez os resultados eleitorais que aí vêm possam ser mais esclarecedores, ainda que estes números das regionais tenham indicado aquilo que já se perspetivava, de um lado o PSD, do outro Paulo Cafôfo. Veremos o que o futuro nos reserva. E já agora, é preciso ver o que se passou na Ponta do Sol e Porto Moniz. Nem é para agora, é para o futuro.

Clarinho como água foi, igualmente, que o CDS também perdeu, votos e deputados. Mas mesmo perdendo, ganhou peso negocial. E que peso. E foi por isso que festejou tão exuberantemente, talvez exageradamente, na noite eleitoral. São formas de festejar a entrada na governação regional. Mais do que nos resultados. É um caso estranho, mas perfeitamente enquadrado na lógica da negociação política. Tem mais peso do que alguma vez teve com maior número de eleitos. E o cenário é tão democrático como outro qualquer. Será uma lógica de reivindicações e cedências. O PSD precisa do CDS para governar com maioria absoluta e o CDS precisa do PSD para chegar ao Governo. É simples. E já se via isso antes das eleições.

O que não é tão simples é conciliar tudo isso com aquela que tem sido a essência da vivência democrática do CDS na vida política madeirense, onde muitos dos militantes estão a acenar com o passado para lembrar aquela que porventura possa ser uma hipotética “memória curta” relativamente ao relacionamento tipo Aliança Democrática na Região, pura e simplesmente inexistente. E é aqui que alguns possam defender a oportunidade, única, de retirar o PSD do poder mesmo colocando de lado as questões ideológicas. É uma opinião como outra qualquer. Uma realidade que a atual direção será obrigada a gerir e a contornar com o argumento de ser uma oportunidade para obrigar o PSD a negociar questões que nem seriam passíveis de discussão em enquadramento de poder absoluto, além de impedir a esquerda de avançar para um governo tipo “Geringonça”. Mas que vai ficar estranho ver o CDS concordar com a Saúde do PSD quando desancou no setor até mais não poder, ainda nem há seis meses, lá isso é verdade. Mas é a política, é assim mesmo. É preciso saber viver com isso.

Finalmente, os outros também perderam, JPP, Bloco, CDU, PTP e os mais pequenos. E precisam igualmente de profunda reflexão, precisam todos. Talvez a mensagem já não passe, além da relevância do reflexo, efetivo, da bipolarização.

O que é preciso, também, é que todos reflitam, de cima a baixo, na forma enfadonha, cinzenta, como decorrem as campanhas eleitorais. Um modelo ultrapassado, sem criatividade. E se não há uma eleição tipo Cafôfo/Albuquerque, por si só mobilizadora, então são dias e dias de ações confrangedoras de lugares comuns. Muito triste. Nem sei como é que ainda se paga a agências de comunicação para fazer este “papel”. Como aliás estamos a ver na campanha para as legislativas nacionais, onde já ninguém sabe o que fazer. Meia dúzia de linhas e fotos de abraços e beijos nos conjunturais melhores amigos do mundo.

É por isso que há situações de desabafo do povo no sentido de “venha o diabo e escolha…”.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.