Continuam as críticas ao modo como se escolheu assinalar os 600 anos no Porto Santo

 

As comemorações da chegada dos portugueses ao Porto Santo continuam a dar que falar. Após as críticas recentes do historiador Nelson Veríssimo quanto à falta de substrato histórico para se assinalar a efeméride a 1 de Novembro, aqui mesmo vertidas no Funchal Notícias, em artigo de opinião, eis que a docente universitária Luísa Paolinelli questionou, na sua página de facebook, porque é que se entendeu que “os 600 Anos no Porto Santo mereciam um congresso e não umas conferências”.

Na opinião da professora da UMa, ao invés de uma palestra, “por muito alto, científico e sério que seja o conteúdo que transmite” o seu protagonista, “seria tão melhor nos 600 Anos, que deviam ser projetados para o futuro, dar espaço a todos para caminhar, dirigir-se em conjunto, criar movimento, para que aponta a etimologia latina de “congresso”. É que enquanto a conferência demonstra, o congresso fala, discute, liga-se a regresso, a ingresso e a progresso”. 

A docente opina sem pretender “qualquer demérito para os intervenientes em Porto Santo, personalidades bastante conhecidas pelo seu contributo nas várias áreas da ciência e da cultura”. Mas acha que “fica a saber a pouco o que deveria ter sido a reunião de vários cientistas e especialistas que poderiam ter trazido consigo a sua experiência e visão, confrontando-se, caso se tivessem aberto inscrições. Não. Fez-se tudo em gabinetes secretos e se até acertaram nos convites deve ter sido por algum conselheiro esclarecido que esteve na base do projeto. A Comissão Consultiva não foi considerada. Talvez porque seria a favor de um congresso, em que se dá lugar, em vez de uma conferência, onde se demonstra”.

Luísa Paolinelli deixa ainda a dúvida: “onde estão os estudiosos de Porto Santo? A Ilha continua a ser descoberta de fora ou há especialistas em Porto Santo que poderiam ter dado o seu contributo? E os jovens? Não há jovens a fazer mestrados, doutoramentos, a escrever para os jornais, a debruçar-se sobre a história, a cultura, a geologia, a biologia, o jornalismo na Ilha Dourada?
Se a resposta da organização é dizer que não encontraram ninguém à altura de colocar no painel dos oradores, é triste. É triste, porque, então, denota a pobreza no investimento na educação, na ciência, na cultura e na criatividade. Diz-nos que das comemorações dos 500 Anos até hoje se perdeu a matéria de que foram feitas as festas da altura: a esperança na inovação das gerações que se seguiram umas às outras em 100 anos. Se um encontro de cientistas e intelectuais só serve para falarem entre si e para alguns considerados mais esclarecidos, há espaços ótimos, como as Academias. Mas, um congresso serve para os mais consagrados especialistas ouvirem também os mais novos e outros estudiosos. Só nesse diálogo se faz a matéria da globalização: transdisciplinar, transgeracional, pluricultural. O resto é antigo e e mima uma aula”.


“Mas”, conclui, “há uma linha lógica: ao povo, na noite de um de novembro, deu-se um espetáculo de canções em inglês (ótimos artistas, mas palco errado), às elites intelectuais deu-se a lição. Tinha razão Fernando Pessoa quando elencava os males da doença mental portuguesa”.

Também Nelson Veríssimo no FN, recorde-se, à semelhança de Luísa Paolinelli, tinha já chamado a atenção para o facto de que Comissão Consultiva não foi tida nem achada pela Comissão Executiva, neste caso relativamente à tradição de comemorar o “achamento” do Porto Santo a 1 de Novembro, que é, na realidade, uma tradição com vida bastante curta, decorrente de um erro dos Rotários funchalenses, que em 1968 quiseram comemorar solenemente o 550º aniversário da “descoberta” da “Ilha Dourada”.


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