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São muitas, insistentes, revoltadas, conformadas e confirmadas, as notícias das mortes, dos feridos e dos detidos que, como resultado da agressiva e violenta repressão ordenada pela autoridades venezuelanas, sobre uma significativa e empenhada participação popular em manifestações de rua pela democracia e pela devolução do país ao seu povo e a todos os que nele acreditam e ajudam a progredir e a crescer, às suas aspirações, aos seus sonhos e à liberdade a que se habituaram e a que têm inteiro jus, são muitas as notícias, dizia, com que esse grande e rico país da América do Sul, a Venezuela, vai sendo parte, sem o alarde noticioso de outros acontecimentos a que o mundo assiste quotidianamente, – ao contrário, a comunicação social, tão expedita e irreverente na aproximação a outros temas do nosso quotidiano colectivo, vai-se revelando prudente, frugal, timorata, em relação a este… -, dos blocos noticiosos das televisões, das rádios e dos jornais, a todos deixando a sensação de que se tratará de uma situação entregue a si própria e em relação à qual, sem recursos de intervenção, o tempo, e só ele, se encarregará de encontrar as soluções adequadas. Mas, atenção, estão lá os nossos e, que mais não seja, por eles, o volume, o cuidado e o rigor da informação produzida deveria ser a pedra de toque de que tem a função de a preparar e disponibilizar.
A Venezuela, e não é possível dispor de dados oficiais que nos habilitem a dizer, com o rigor desejável, o número exacto, poderá ter, hoje, com os luso-descendentes, cerca de um milhão e meio de cidadãos que, por serem portugueses ou seus descendentes, é em Portugal que mergulham as suas raízes, parte significativa da sua história e da sua memória e uma significativa reserva dos seus afectos apesar de, por mais paradoxal que se nos afigura, ter sido o seu País, o nosso País, que ao longo de muitas décadas os “obrigou”, a contragosto, a procurarem, na Venezuela e noutras paragens, o centro da esperança, as poderosas motivações de uma vida a ser vivida e as condições para que, corajosamente, não deixassem morrer os sonhos e nela procurassem a concretização a realização de tudo o que mais aspiravam para si próprios e para os seus.
A Venezuela é, por isso, e também, uma causa nossa. O que se lá passa, diz-nos respeito, queremos saber mais do que o que nos contam, e podem contar, os nossos, queremos saber o que pensa quem manda, queremos entender, como se chegou a este estado de coisas e desejamos ter condições para tentar “adivinhar” o desfecho que, fervorosamente, queremos de recomeço, de energia e de vontade. Qualquer sinal de indiferença e de diletantismo que egoísta e preguiçosamente emprestemos à tentativa de avaliar o que pela Venezuela se passa, coloca-nos, irremediavelmente, do lado errado do confronto: o da intolerância, da repressão, da agressão, da violência, do desrespeito pelos cidadãos e pelos seus direitos, do sinistro percurso rumo a uma perigosa e estéril ditadura que, como dizia Mário Soares em relação a todas elas, “sabe-se sempre quando uma ditadura começa, nunca se sabe quando acabará”…
Por isso, este texto é também, ou sobretudo, uma homenagem e uma manifestação de grande solidariedade, a todos quantos, na Venezuela, portugueses da Madeira ou de qualquer outro local do País e cidadãos em geral, rejeitam a ditadura e, lutando de forma pacífica, mas convicta, corajosa e abnegada, continuam a exibir a sua cidadania, acreditar na democracia, na paz e no que ela tem de esperançoso para todos os que não desistiram da vida e do futuro.
Em 1998, por altura da campanha eleitoral para as eleições presidenciais que viriam a culminar na eleição de Hugo Chávez, por razões de natureza política estive na Venezuela e procurei, naturalmente, acompanhá-la, tentando perceber o que me surgiu, há pouco chegado, claramente, como sendo um ambiente de mobilizada euforia e último reduto de esperança junto da referida candidatura. A minha apreciação sobre o que se passava na história democrática da Venezuela tinha outra inspiração, outras inspirações; ver que, mesmo em sectores significativos da comunidade madeirense, por exemplo, havia activos e empenhados militantes do “chavismo”, movimento fundado em incontornável referência Histórica da independência da Venezuela, e de outros territórios da américa Latina, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, de que Simón Bolívar, “O Libertador”, foi inspirada e corajosa figura de proa, surpreendeu-me relativamente.
De facto, várias décadas de um claríssimo consenso ao centro, – ah, a alternância sem alternativa real. A democracia vive da diferença, alimenta-se da diferença, fortalece-se na diferença…-, tinham vindo a reduzir as expectativas populares e a induzir o desânimo provocando o desencanto e forjando o sucesso da aventura que, passados uns anos, e porque Chávez morreu, conta hoje com outro protagonista, no seu lugar, que ao mundo vai mostrando o que quer mas, sobretudo, o que não quer: uma Venezuela livre, democrática, plural e para todos os que lá vivem.
E é esse, hoje, o grande desafio da Venezuela, – e para os venezuelanos -, romper o isolamento a que, por instintiva defesa, se vai entregando (acabo de ler que os seus responsáveis haviam decidido sair da Organização dos Estados Americanos, OEA), evitar uma possível e tenebrosa guerra civil, – o Presidente da Venezuela tinha adjudicado a compra de 500 000 armas para distribuir pelas suas “milícias”-, e, nas urnas, em eleições livres, reconduzir a Venezuela nos caminhos dos valores em que acreditamos.
Que mais não seja, pelos nossos!
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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.
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