Crónica Urbana: Somos um país de Zés das Medalhas

 

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Rui Marote

Hoje será uma excepção: a Crónica Urbana sai dos limites geográficos do nosso arquipélago para dar a conhecer o que se passou no rectângulo português. Até custa a acreditar, mas é verdade, verdadinha. Recordo que, quando estava em Moçambique, ouvi muitas vezes a frase ‘já chegámos à Madeira?’… Ao princípio não entendia o que isto queria dizer. Levei algum tempo.

O Diário da República passa despercebido a 99 por cento dos portugueses. Tomei conhecimento da portaria 546/2016 de 29 de Dezembro, na qual é atribuída a Medalha Vasco da Gama a Maria Oliveira Fragoso a esposa do ex-chefe de Estado Maior da Armada, o almirante Macieira Fragoso, que passou à reserva.

Esta condecoração serve para homenagear quem tenha praticado “actos meritórios ou prestado relevantes serviços ou tenha contribuído, de maneira saliente, para a eficiência, o desenvolvimento ou o prestígio das marinhas de Portugal”.

Não se compreende como o actual almirante-chefe do Estado Maior da Armada, Silva Ribeiro, embarcou neste conto de fadas, e em despacho tenha mandado publicar em Diário da República tal condecoração.

Já agora e a propósito, registe-se que o nosso herói Vasco da Gama, sabe-se hoje, era pessoa pouco recomendável e de maus fígados e foi mesmo tratado pelo samorim de Calecute como autêntica ralé, um malcheiroso, embora Camões, nos ‘Lusíadas’, o destaque como figura cimeira dos Descobrimentos portugueses…

Mas que feito heróico Maria Oliveira Fragoso fez durante os três anos que o seu esposo, almirante Macieira Fragoso, esteve em funções como chefe de Estado Maior da Armada e Autoridade Marítima Nacional? Que serviços relevantes prestou?  Maria Oliveira Fragoso é uma “conhecedora invulgar dos hábitos e costumes navais”. Possui um inusitado gosto pela cultura destas seculares e briosas instituições”, desenvolveu “uma prolífica actividade de apoio ao cargo do almirante-chefe do Estado Maior da Armada, disponibilizando-se, sem reservas, para inúmeras acções de representação a nível nacional e internacional”

E para nosso espanto, a senhora foi condecorada pelo almirante António Silva Ribeiro, que substitui o marido no cargo. Segundo reza a história é caso inédito a esposa dum oficial das Forças Armadas obter tal distinção. Nem as esposas de Ramalho Eanes, de Mário Soares, de Sampaio e de Cavaco Silva receberam tais insígnias.

Se a moda pega, que se comece já a encomendar medalhas, porque na fila, que já vai longa, os pretendentes são imensos. Mas não fiquemos por aqui: no passado dia 5 de Dezembro o almirante Macieira Fragoso esteve na Madeira a apresentar cumprimentos de despedida às entidades regionais e ao representante da República. Espantosamente, o almirante deslocou-se expressamente à RAM no Falcon da Força Aérea Portuguesa.

Quanto custaram estes apertos de mão ao Estado português? De um representante da hierarquia do Estado que é o nº 21 do protocolo a seguir aos secretários de Estado?

 


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