
Fotos: Rui Marote
A aura romântica que habitualmente envolve o Monte cedeu lugar a um profundo sentimento de tristeza, entranhado na atitude de quantos circulavam e conviviam, hoje de manhã, pelos diversos recantos da freguesia. Alheios a tudo, alguns estrangeiros percorrem os caminhos e vêem as vistas e os locais de interesse, mas o choque pelo bárbaro assassinato a tiro do chefe dos carreiros do Monte, ontem ocorrido frente a várias testemunhas, ainda domina os comportamentos, deixando entrever que este acontecimento trágico levará tempo a digerir.

Ao contrário do que é costume, hoje os carreiros não laboram. Encontramo-los sentados nas proximidades da zona de partida, nas cercanias dos carros de cesto, reunidos em grupos que conversam entredentes. Mastigam as palavras, respondem com amargura às perguntas delicadas que lhes colocamos. “Tratava-se de um colega nosso que morreu, morto por um antigo colega. É claro que isso mexeu connosco”, refere um deles. A maioria nem quer falar do caso com repórteres, mas alguns sempre se abriram connosco, revelando conhecer ambas as partes do conflito. Dizem-nos que o suspeito de homicídio – e dizemos suspeito porque, mesmo com testemunhas do ocorrido, só o tribunal o poderá declarar culpado – era pessoa que por vezes se irritava e perdia a compostura.
Estes testemunhos valem o que valem, mas, dado o interesse sociológico que um crime de sangue deste tipo sempre desperta, reputamo-los como de algum valor. Dizem-nos que o alegado criminoso, de nome Leonel e idade de cerca de 50 anos, já não laborava no ofício de carreiro há cerca de dois anos. Fora já operado à coluna e mesmo a um tumor que tinha no cérebro, e que lhe deixou uma grande cicatriz na cabeça. Com o número 52 de carreiro, residente na zona da Corujeira, era um homem natural do Lombo do Galego, em São Roque do Faial, e que, referem, até tinha uma boa casa, não lhe sendo conhecidos grandes problemas de índole económica. Costumava, todavia, vender periquitos nos mercados do Santo da Serra, e há até quem especule se não terá sido aí que terá adquirido a pistola semi-automática que usou para matar a tiro o chefe dos carreiros, Norberto Gouveia. Mas esta última hipótese não passa de conjectura.

O que é certo, e diz quem o conhece, é que o agora suspeito de homicídio era um homem muito forte e duro, que já se tinha envolvido em confrontações físicas com outros carreiros, inclusive com Norberto Gouveia. A este último dirigia por vezes provocações, mas o falecido, que parece ser pessoa bem vista pela generalidade da comunidade, ou pelo menos pelas pessoas com quem falámos, procurava evitar altercações. Por vezes seguia mesmo por outro caminho.
Já tinha, aparentemente, ameaçado que iria fazer mal a três pessoas. Uma delas era Norberto Gouveia, pai de três filhos. Outra era o proprietário de um café do centro do Monte. Outra um outro carreiro, residente na Nazaré. Ontem resolveu levar por diante as suas intenções. Saiu de um café no centro da freguesia, perto da área onde os carreiros se reúnem, à beira da estrada. Ter-se-á desencadeado uma altercação com Norberto Gouveia, na sequência da qual o suspeito Leonel terá puxado de uma pistola e desferido três tiros na cabeça deste. Prostrado no chão, Norberto ainda respirava, e o alegado homicida, ao aperceber-se disso, terá disparado não uma, mas duas vezes para o peito do homem caído. As pessoas têm poucas dúvidas de que existiu, efectivamente, intenção de matar, embora tal ainda tenha de ser provado em julgamento.

Da zona onde os carreiros se reúnem, e onde se consumou o assassinato, o alegado homicida percorreu a pé ainda uma centena de metros na direcção do Largo da Fonte. Aí perto, terá entrado no café Alto Monte, onde pretendia confrontar o proprietário. “Faltam mais dois”, terá dito, a pessoas com quem se cruzou. Felizmente não encontrou os outros homens que procurava. Ao sair, acabou por deter-se perto da curva da estrada que passa no Largo da Fonte. E foi aí que os polícias que o procuravam de arma em punho, e que acorreram ao local na sequência do alerta dado de tiros disparados no Monte, o foram encontrar. Não ofereceu resistência e foi levado num veículo policial. Agora está nas mãos da Polícia Judiciária, que reúne competências para investigar este tipo de crimes.

Nas redes sociais, as páginas pessoais dos filhos do falecido enchem-se de mensagens de pêsames, esperança e solidariedade. Uma das filhas publicou uma foto dela com o o progenitor, apenas com os dizeres “Pai, meu pai”. Sente-se a dor do momento. Uma dor extensível a toda a população do Monte. Hoje, em grupos aqui e ali, na Junta de Freguesia, nos cafés, nos recantos, na zona da igreja, não se falava doutra coisa. Não em tons exaltados, mas em surdina, como que ainda a absorver a dura realidade do triste evento. “Custa a acreditar”, confessam-nos.
Há quem conheça bem o agressor. Dizem-nos que nunca tiveram problemas com ele, mas que era homem irascível, por vezes, e que piorou depois da operação ao tumor no cérebro. E temem que regresse. “Já viu se ele invoca insanidade, se o metem numa casa de saúde e não na prisão, apenas por alguns anos, e depois o deixam sair de novo? Ele vai certamente matar os outros dois”, afiançam-nos. “Confesso que tenho medo”, diz um comerciante. “Não o desejo ver solto novamente. Ele planeou este crime friamente, já andava a pensar nisto há algum tempo. Subia até à igreja, observava os carreiros lá em baixo. Já acalentava esta ideia há algum tempo”, afirma. E pede-nos: “Não diga o meu nome, temo-o”.

A presidente da Junta de Freguesia, Idalina Silva, admite-nos que “o Monte passa por um profundo sentimento de luto”, que perpassa por todos os habitantes. “Já vivemos uma situação triste com o 20 de Fevereiro de 2010, com os incêndios, e agora, isto…” As catástrofes naturais são uma coisa inevitável, mas esta é uma situação diferente, um drama humano. “Os carreiros são uma classe que está neste momento e compreensivelmente, muito afectada”, confessa Idalina Silva.
Quanto ao impacto deste acontecimento sombrio no turismo, ainda está por avaliar. Idalina Silva prefere não comentar essa questão. “Estamos neste momento ainda a tomar consciência do que aconteceu, ainda nem sabemos bem o que se passou. Fiquei completamente perplexa com esta tragédia”, referiu a autarca ao Funchal Notícias.

Também o pároco da freguesia, Pe. Giselo, que tentámos contactar durante a manhã para um comentário, sem sucesso, publicou entretanto no facebook um comentário sobre o ocorrido (ver outro artigo no FN) lamentando a violência do acto que veio manchar a pacatez da freguesia do Funchal que é conhecida como a Sintra madeirense. E alerta que o Papa Francisco exortou toda a população mundial a seguir uma via de não-violência.
Ainda faltam muitos momentos de dor e consternação para as famílias envolvidas e para o Monte em geral. Ao funeral da vítima seguir-se-ão os procedimentos legais, o julgamento. É de prever que tudo isso seja vivido com grande angústia. Aquele rincão habitual de paz e sossego demorará a recuperar do impacto deste lamentável evento.
“Já viu o que ele foi fazer? Desgraçou duas famílias: a da vítima e a dele. Imagina o impacto que isto tem nos filhos, nas esposas?”, comentava um nosso interlocutor, esta manhã, no Largo da Fonte.
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