Historiador Alberto Vieira lembra que não é correto chamar ao ‘Golden’ a ‘esquina do mundo’ e que Raul Brandão referiu-se a ele antes de Ferreira de Castro

camachofones golden gateA propósito do café ‘Golden Gate’, o historiador Alberto Vieira diz que não é correto afirmar que Ferreira de Castro o refere como a “esquina da mundo”.

“Não sei onde viram isso”, escreve hoje no seu mural do facebook.

A referência do autor é esta e dela não se pode inferir que o Golden é “a esquina do mundo” mas antes uma das esquinas do mundo.

Eis os excerto da obra “Eternidade”, 13.ª edição, Lisboa, sd, p. 220):
“… Aquele ângulo do Funchal era, entre as esquinas do Mundo, um dos mais dobrado, em todos os dias do ano, pelo espírito cosmopolita do século. Em viagem, de recreio ou em trânsito para África e Américas, davam volta ao cunhal do Golden Gate, diariamente, homens e mulheres de numerosas raças, o passo vagoroso, o nariz no ar, as mãos carregadas de cestos, de garrafas e de bordados da Madeira.”

Alberto Vieira recorda que este romance de Ferreira de Castro foi escrito entre Março de 1932 e Fevereiro de 1933 e revisto em 1954.

Mas lembra que já em 1924, Raul Brandão (Ilhas Desconhecidas, Lisboa, sd,p. 191) havia visto e escrito:
“Sentado à porta do Golden Gate, ouço o apito do vapor, e já sei o que se vai passar: muda a armação como um cenário de mágica. Surgem homens com grandes chapéus de palha para vender bordados, colares falsos de coral, cestos de fruta; iluminam de repente as lojas, e segue o desfile de tipos- pretas de Cabo Verde com foulards vermelhos na cabeça, mulheres planturosas, alemães maciços, portugueses esverdeados e febris que regressam das colónias, velhas inglesas horríveis que vêm não sei donde e partem não sei para onde, desaparecendo para sempre no mistério insondável do mar; criaturas inverosímeis que rodam a toda a força nos automóveis num frenesi que dura momentos e se passa na única rua onde há um café que transborda de luz. Mas as máquinas de bordo dão o sinal e uma hora depois esta vida fictícia desapareceu e tudo reentra no isolamento e no silêncio. Apagam-se as luzes, correm-se os taipais e os vendedores mergulham na pacatez da vida quotidiana. O quadro está sempre a repetir-se com a chegada e a partida dos grandes transatlânticos.”

“Afinal o que conta é a esquina e a esplanada…”, revela Alberto Vieira.


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