Eles “são todos iguais”

mota-torres-icon

Contava-se, – ou terei lido, algures… -, que Salazar, no seu registo professoral, com uma bonomia estudada, mas autoritário, em conversa com o seu ministro das obras públicas de então, Arantes de Oliveira, lhe terá dito, sibilino, a propósito de um pequeno desentendimento entre ambos surgido, que a política era muito mais complicada do que a hidráulica. Comparando o incomparável, o ditador evidenciava ter a compreensão perfeita de que, apesar da sua força política pessoal, da que resultava da acção do aparelho repressivo cuidadosamente criado e operacionalizado, dos apoios musculados que mantinha, e do beneplácito de que gozava por parte de sectores influentes da sociedade portuguesa, a política era, em todo o caso, o compromisso entre o que se pretendia cumprir, enquanto fonte de decisão e de poder, o que era possível realizar, e tudo o que, naturalmente, esperavam os cidadãos, correspondesse à concretização dos seus mais prementes e justificados anseios e expectativas, e que era, nestes precisos termos e com esta percepção dos equilíbrios, que deviam ser geridas as intrincadas relações do poder político com as pessoas, com a sociedade no seu todo e com a complexidade própria da individualidade e particularidade dos comportamentos humanos.

Ocorreu-me referir este longínquo episódio para, despretensiosamente, tentar contribuir para recuperar a política para os cidadãos e promover, entre estes, a ideia de que, sobretudo em democracia, a política é deles, é para eles e por todos tem de ser escrutinada, vigiada, monitorizada, salvaguardada. Desvalorizar a actividade política, menorizar os seus agentes, difundir a desconfiança que, propositadamente, sobre eles é instalada e reverberar o simplismo das classificações rotulares que os apoucam e diminuem aos olhos da opinião pública, do tipo, “são todos iguais”, é a actividade dilecta de todos os que, nostálgicos de outros tempos e de outros protagonismos, saudosos de censuráveis obediências e reverenciadores face aos seus mandantes, incansavelmente, cumprem agendas marcadas pela intolerância, pela desconfiança e pela incapacidade de conviverem com a liberdade.

Devolver a política ao espaço que deve ser seu, o da credibilidade e prestígio é, assim, uma obrigação de consciência dos homens livres.

Saímos, há não muito tempo, de facto, de um, exageradamente longo, período em que, perante a nossa incredulidade e, porque não, estupefacção até, as relações do poder político com os cidadãos primaram pela ausência de compromisso, inexistência de cumplicidade, falta de vontade de que esse poder, geneticamente democrático, correspondesse às regras que ela própria, a democracia, postula. As promessas que haviam sido feitas, não se cumpriram; o diálogo foi substituído pela ordem – da maioria; os portugueses foram atirados uns contra os outros, na ânsia de “dividir para reinar”; o orgulho nacional desta nação com nove séculos de História, foi hipotecado a uma “coisa” chamada troika; os objectivos traçados deixaram de ser centrados nas pessoas e nas suas expectativas e passaram a estar nas determinações dessa “coisa” com a alegre cumplicidade e auto-elogiado orgulho de um governo rendido ao que, sem regatear, julgou ser a receita final; a tolerância cedeu o lugar à arrogância; a brutalidade do que se fazia e decidia, e das suas consequências na vida dos homens e mulheres deste País, não constava do elenco das prioridades governativas; o clima de intranquilidade face ao devir pessoal, familiar, empresarial e social que se ia vivendo, transformavam cada véspera numa angustiante espera pelo que aconteceria depois; acordar passou a incluir a possibilidade de ver os rendimentos diminuídos, os impostos aumentados, a escola dos filhos, longe, ou sem professores, o hospital sem médicos, ou sem medicamentos, ou sem cirurgias ou sem urgências, a justiça sem tribunais; viver passou a ser, sem recurso, depender em absoluto daqueles que, porque a democracia os escolheu, chamaram a si a decisão sem apelo e o exercício de um poder para o qual não estavam, nem podiam estar mandatados.

Que diferença!

Vivemos hoje, com novo governo, com nova estratégia, com novo programa e com outra forma de estar na política e na sociedade, dentro e fora de portas, a sensação recuperada de uma cidadania respeitada num Portugal, – espaço continental e nas regiões autónomas -, que, voltamos a acreditar, queremos democrático, livre e promissor.

Sem necessidade de grandes proclamações, de espaventosas aparições e de cuidadas coreografias, os governantes, sob a direcção calma e ponderada, de grande sentido de Estado, do seu Primeiro-ministro, têm vindo a dar corpo a um conjunto de instrumentos de política, de ideias e de práticas com as quais os portugueses, de forma crescentemente expressiva se vão identificando, no quadro da normalização da vida, da estabilidade pretendida, e reivindicada, e da vontade que acalentam de retomar, com confiança, os caminhos da construção do futuro.

Comunicação social, analistas, especialistas, comentadores e curiosos, um pouco por todo o lado, vão-se fazendo eco do que vai sendo realizado, vão exercitando alguns louvores, vão alimentando a fogueira da esperança. Cá em casa, no nosso País, a prudência, se assim se lhe pode chamar, é maior. A dificuldade que se sente, – lendo os jornais, ouvindo e vendo os noticiários -, no reconhecimento do que se nos afigura óbvio como positivo e digno de nota, evidenciada pelas incontidas reticências, pela opinião sectarizada, pelos títulos escolhidos, pela suspeita induzida, pelo boato propagado, pelos critérios de comunicação utilizados, em suma, dão bem para que entendamos as dificuldades de quem, contra ventos e marés, apostou em Portugal.

Post-Scriptum

Enquanto escrevia o texto acima, a 22 de Março de 2016, três explosões em Bruxelas agrediam com violência a União Europeia e, nela, os seus valores fundamentais: a democracia e a liberdade.

É tempo de lucidez acrescida, de exigível rigor e de indispensáveis determinação e coragem, neste combate que a todos incumbe enfrentar contra a ignomínia que o terrorismo exibe.