Cultura para quê? A pergunta surge, tantas vezes, quando as prioridades parecem – ou deveriam parecer – muito claras, saúde, emprego, segurança, economia. Perante urgências concretas, a cultura é frequentemente vista como um luxo supérfluo, algo acessório, bonito, mas dispensável. Desculpem-me o arrojo, mas a cultura, na sua verdadeira assunção, parece-me cada vez mais (in)dispensável. No entanto, questionar a utilidade da cultura é, na verdade, questionar aquilo que nos define enquanto sociedade.
Não me canso de afirmar que a cultura não é apenas entretenimento – ou folia carnavalesca, alusão à época –, nem um adorno para tempos de abundância. É memória, identidade, pensamento crítico e liberdade. É através da cultura que uma comunidade se reconhece, se interroga e se projeta no futuro. Um povo sem cultura – sem pensar, interpretar e posicionar-se – é um povo sem voz própria, condenado a repetir discursos alheios e a aceitar realidades sem as compreender.
Quando lemos um livro, assistimos a uma peça de teatro, ouvimos música ou visitamos um museu, não estamos apenas a “passar o tempo”. Estamos a exercitar a empatia, a imaginação e a capacidade de pensar para além do imediato. A cultura ensina-nos a colocar perguntas (in)cómodas, a duvidar do óbvio e a acrescentar mais conhecimento. Num tempo dominado pela rapidez, pela superficialidade e pela desinformação, a cultura torna-se mais urgente do que nunca.
Além disso, a cultura é um poderoso instrumento de coesão social. Num espaço cultural convivem diferentes idades, origens e visões do mundo. Ali, o diálogo é possível sem violência, e as diferenças transformam-se em riqueza, não em ameaça. Investir em cultura é investir em cidadãos mais conscientes, participativos e tolerantes — qualidades essenciais para qualquer democracia saudável.
Do ponto de vista económico, o argumento da inutilidade cultural também não se sustenta. As indústrias culturais e criativas geram emprego, dinamizam territórios e atraem turismo qualificado. Mas mesmo que não gerassem lucro direto, continuariam a ser indispensáveis. Nem tudo o que é essencial pode ou deve ser medido apenas em termos financeiros.
A cultura é igualmente um espaço de resistência. Em contextos de censura, autoritarismo ou desigualdade, é muitas vezes a arte que dá voz aos silenciados e expõe aquilo que o poder prefere esconder. Por isso, regimes autoritários temem artistas, escritores e pensadores: porque a cultura incomoda, questiona e liberta.
Daí que perguntar “cultura para quê?” é legítimo, mas a resposta é clara: para sermos mais humanos. Para compreendermos o passado, enfrentarmos o presente e imaginarmos futuros possíveis.
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