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A constante histórica que permite ao ser humano viver em sociedade é a obtenção duma condição identitária produzida através da miscigenação cultural que reúne características herdadas de quem, ao longo das épocas, habitou os vários territórios. Pela oportunidade do assunto, para quem advoga o purismo da nossa estirpe portuguesa, ou seja, a singularidade da nossa origem, achei por bem recordar o texto «Mais do que somos», publicado em 2019 neste mesmo espaço de opinião do FUNCHAL NOTÍCIAS. Segue o texto:
As nossas remotas origens levam-nos até épocas cujos resquícios hoje visíveis, nos fazem pensar sobre os orgulhos apregoados do que somos. Na realidade somos «mais do que somos» e poderemos afirmá-lo a partir da data em que se revelam os testemunhos históricos sobre a existência dos habitantes ancestrais do nosso actual território : Através de documentos vários, em arquivos cuidadosamente conservados, monumentos recuperados de entre ruinas e subterrâneos, desde a mais alta muralha até à mais pequena moeda ou artefacto encontrados nas escavações das cidades, ou nas fundações de um qualquer edifício em construção. É de salientar, a este propósito, uma capela paleocristã descoberta em Mértola, durante o lançamento dos alicerces de um prédio por volta de 2013. Um achado precioso e inesperado que fez parte duma antiga basílica agora constituída Museu.
Mas hoje, é por Toledo que me deixo seduzir. Por essa vetusta e atraente cidade imperial, com inspiradoras ruas estreitas, majestosas pontes sobre o Tejo, pela cor rósea das fachadas monumentais, marcadas por arcos em ferradura e ornamentos mudéjar, memórias repartidas por tempos distantes, onde visigodos, romanos judeus e árabes fizeram sua morada e edificaram seus tributos às altas instâncias do espírito. Pode um Cristo preso a uma cruz erguer-se sob os arcos duma mesquita, como pode Santa Maria dar o nome a uma magnífica sinagoga. A história da miscigenação dos povos é uma matéria apaixonante que, de imediato, dilui as pequenas visões sobre quem é quem, onde acabam os romanos e começam os visigodos, ou onde se extinguem os visigodos e dominam os árabes. Muitos séculos passam sobre a história para que se definam os impérios. E aqui, em Toledo, é, precisamente, o testemunho dessa coexistência que a torna, toda ela, no grande monumento histórico que se impõe sobre esta colina majestosa.
Se recuarmos à data de 500 e olharmos para o mapa que representa a parte ocidental do território ao norte do Mediterrâneo, hoje Europa, vemos marcada uma extensa zona que ocupa grande parte da França, a Espanha e o sul de Portugal. Esta grande mancha territorial ostenta a designação de Reino Visigótico. Esta época salientou-se por numerosas batalhas entre os vários ocupantes, Suevos na zona da Galiza, Francos, na Zona da Gália e os Burgúndios, na Borgonha. Enfraquecido o reino Visigótico por estas sucessivas guerras, Justiniano que detinha o Império Bizantino, deslocou exércitos para ocidente e formou a província imperial da Hispânia.
Por fim, em 586, Recaredo I, depois de consolidado o poder Visigótico por seu pai,o rei Leovegildo, converteu-se ao cristianismo e estabeleceu em Toledo a capital do reino. Preciso de salientar a mudança das leis operadas por Recaredo, cujo nome constitui a toponímia duma das principais avenidas de acesso ao centro desta cidade. Baseando-se no direito romano,as novas leis substituíram os códigos do passado gótico, concedendo aos duques e condes, amplas responsabilidades fora dos seus deveres civis e militares, e os servos e escravos do rei tornaram-se importantes burocratas e administrativos. Foram atribuídos importantes direitos às mulheres que poderiam herdar terras e títulos, e administra-los independentemente dos homens, maridos ou parentes, dispor das propriedades em testamento, representar-se e testemunhar em tribunal e decidir e organizar os seus próprios casamentos a partir dos 20 anos.
A cultura visigótica salientou-se por um alto estatuto, a contrariar a memória que o vulgo atribui à existência deste povo. As primeiras cidades construídas na Europa após a queda do Império Romano devem-se aos visigodos, cujo legado, para além do seu código de leis, se revela em nomes próprios e apelidos, numerosos achados arqueológicos em Portugal e Espanha e nas várias igrejas ainda existentes.
Volto a Toledo para referir a preciosa igreja de S. Román, Museu da Cultura Visigótica, que mantém em integridade assinalável, a sua beleza original. Os arcos em ferradura sobre colunas com capitéis de ornatos fitomórficos, e os frescos de características «bizantinas», ainda intactos, que revestem as paredes e os mesmos arcos, criam um ambiente cálido e envolvente. O espólio deste museu é totalmente composto por achados, que constituem valiosa informação sobre a história visigótica na península Hispânica.
Portugal ao ter sido um prolongamento deste antigo reino, guarda entre as memórias da época paleocristã a Igreja de S, Gião, do sec,VII, na Nazaré, hoje recuperada, e a capela de S, Frutuoso, conhecida também por capela de S. Salvador de Montélios, em Braga, datada do mesmo século, de traçado suevo-visigótico, fazendo lembrar os mausoléus bizantinos. A igreja de S. Gião de tipologia visigótica, românica, possui transepto, abside de planta quadrangular coberta por abóboda de berço, iconóstese (arquitrave com pinturas de santos) de influência bizantina e celas laterais. De salientar também a igreja de S. Pedro de Balsemão em Lamego, cuja origem divide os historiadores entre duas origens, a visigótica e a moçárabe.
A sul, onde a presença visigótica foi mais notória, salienta-se o núcleo notável que já referi de início e consta de uma basílica e um cemitério, no Museu do Rossio do Carmo em Mértola, onde é possível observar uma rara colecção de lápides e estelas funerárias com inscrições em alfabeto visigótico. Existe também uma forma de canto monódico, expressão musical que reúne tês influências seculares por abranger o romano o visigótico e o moçárabe. Alguns cantares populares portugueses apresentam características semelhantes, pela sua simplicidade melódica, sem acompanhamento instrumental.
Lembro ainda as duas línguas oficiais portuguesas, o português e o mirandês, além dos inúmeros vocábulos cujo étimo traz até nós a memória dos árabes que ocuparam o sul do país ,tais como alface, alegria, altura, alçado, álbum, almoço, alguidar, alívio, algures, alugar, aluno e muitos, muitos mais, cerca de mil. Tendo origem visigótica ou sueva, alguns deles chegaram até nós por via germânica e provençal.
Termino aqui esta digressão pela nossa ancestralidade e lembro que, antecipando o que agora somos, nomes nossos, como Antónia, Amanda ou Fortunato, foram já encontrados em inscrições paleocristãs nos distantes seculos VI e VII, além de Álvaro, Gonçalo, Rodrigo, Fernando e outros.
Junho, 2025
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