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Numa época em que muitos incrédulos e desatentos diziam não haver poetas nesta ilha da Madeira, Natália Correia disse: *«Fechai os vossos guichets de bancários da estase e vinde à ilha». No seu modo provocatório de afirmar certas verdades, na sua verve poderosa, na vibrante capacidade de dominar a língua portuguesa, traduzida no vigor da escrita e das ideias, Natália Correia sabia quanto as ilhas se perdiam na imensidão do mar e da indiferença. O mapa do império referia umas terras atlânticas distantes da Pátria Mãe, falava-se vagamente dessa existência, mas pouco ou nada se conhecia dessa gente que a habitava.
Não vou falar do presente e de algumas janelas que, muito justamente, se foram abrindo. Falo dum passado próximo em termos históricos, um passado de cinquenta anos em que os poetas da Madeira foram dizendo que sim, que existiam, persistentes em fazer ouvir a sua voz, em marcar uma presença pensante para que a terra florescesse em matéria anímica, para que se soubesse da sua alma e da sua índole.
E foram surgindo alguns livros de gente empreendedora, jovens sonhadores no bom sentido do sonho construtor de ideais válidos, de novos saberes e tomadas de consciência. O primeiro desta série apareceu em 1975 e chamou-se simplesmente ILHA. Antes houvera já uma tentativa de jovens determinados que trouxeram a público, nos Jornais, as suas primeiras cogitações, de pouca duração, devido às tribulações do tempo. Em desagravo da sua condição geográfica, esta ILHA significava sobretudo «gente». Gente para quem não existiam redutos ou fronteiras e se lançava ao mundo através da sua expressão livre, poesia primordial, «vida sempre a surgir da água, Madre Marinha», continuava a dizer Natália Correia. Estas palavras foram por ela escritas para introdução do segundo livro, o ILHA 2,em 1979. Seis poetas reunidos pelo entusiasmo do poeta desafiador José António Gonçalves, compõem esta segunda obra e outras se seguiram de que continuaremos a falar em próximas crónicas.
A intenção deste texto é trazer aos novos o conhecimento de que, apesar das muitas incredulidades, sempre houve poetas na Ilha, Poucos ou muitos, não somamos pessoas, apenas referimos que a ilha tem uma alma que se revela na escrita de quem aqui vive e trabalha, Muitos procuraram fora da terra terreno mais fértil para lançar a semente. Os que ficaram por cá não deixaram de cultivar vagarosa mas obstinadamente a sua leira. São estes que a crónica de hoje pretende evocar neste ano de 2025, ano em que desejamos comemorar o quinquagésimo aniversário do Movimento ILHA.
Entretanto há nomes. Poetas reais constantes das cinco colectâneas que foram publicadas ao longo dos anos, desde 1975. ILHA 2 em 1979. Doze anos depois.ILHA 3 em1991;ILHA 4 em 1994 e por último, pela mão de Marco Gonçalves, em 2008, fechou-se o ciclo com ILHA 5. Durante este período. precisamente em 1977, surgiu à parte um volume organizado por José Vieira de Freitas com o título «Da ilha que Somos» que salienta na contracapa: «Se o homem é uma ilha, a palavra dos poetas adquire a expressão de um Arquipélago na medida em que se afirma sob o signo da revelação necessária; esta revelação tem um movimento próprio, movimento de escrita e movimento de ideias»,
Mais recentemente, a memória desta fase da actividade literária na Madeira, suscitou da parte da Universidade, através do professor Thierry Proença dos Santos que se acompanhou de um grupo de coordenadores, a vontade de prosseguir, trazendo aos leitores, num novo formato e num âmbito mais alargado, uma obra em dois volumes que reúne vinte e quatro poetas cujos textos são individualmente salientados através duma leitura em modo de apresentação. Um processo que pode orientar os leitores no conhecimento dos autores e na compreensão dos poemas: São os *CADERNOS DE SANTIAGO I e II ( 2016 e 2021). Aqui se encontram poetas residentes que integraram o Movimento ILHA e outros que continuam a laborar naquilo que Natália Correia chamou a «Misteriosofia da Insularidade». Natália Correia, polémica, mordaz, mas arguta e certeira, exprimia numa exuberante metáfora o que pensava dos incrédulos e distraídos:
**«Se com a mínima honestidade quereis prelecionar sobre as Musas, vinde à Ilha, Com sua íris de vidro atlântico elas vos mergulharão na hipnose que vos libertará da insónia da vossa coscuvilhice racionalista».
(continua numa próxima crónica)
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* in ILHA 2
** Âncora Editora
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