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Estou naquela época da vida em que as memórias, pouco a pouco recuperadas, acabam por compor e dar evidência à forma que o tempo foi modelando o que acabamos por ser no presente. Nós, os mais velhos, somos, cada um segundo a sua particular experiência, um «Repositório de História». A História, aquela que define um país, não é um somatório de factos avulsos, mas aquilo que resulta do empenhamento e da criatividade humana, nas várias vertentes em que os humanos intervêem. Desde o agricultor ( antes dizia-se «o homem da enxada»), ao da sovela, do torno, da bigorna, «da espada e da pena», como disse Camões.
Hoje o tempo é outro, as ferramentas mudaram, mas o planeta é o mesmo, os humanos continuam a prover à sua subsistência, a alimentar sonhos e ambições, na mesma perspectiva de continuar a preservação da espécie que dará continuidade à História. – esse processo evolutivo que, apesar das rupturas, se manifesta sempre pela necessidade de proporcionar a todos a condição básica da sobrevivência, traduzida na metáfora «paz, pão e trabalho».
Daqui poder-se-ia derivar para assuntos delicados e controversos como as questões económicas e sociais, e respectiva sustentabilidade. São assuntos que não domino e estão totalmente fora do meu alcance. Interessa-me, sim, neste momento, a reflexão pedagógica.
Há poucos dias, assistiu-se à explosão festiva que comemorou a data mais importante, dos tempos recentes da História do país. Cinquenta anos que o dia 25 de Abril contou, desde que o país saíu do fosso escuro e estagnado de quarenta e cinco anos de ditadura. Os mais novos não sabem o que isso é, nem é fácil passar-lhes essa mensagem. Contar-lhes o facto é só a primeira etapa da mensagem. Mas o facto, só por si, cai friamente nas suas cabeças como «A guerra dos trinta anos» no longínquo sec. XVI, ou o Catarismo no sec. XII. Cinquenta anos para os mais novos é uma data anacrónica que nada lhes diz.
Não podemos, contudo, menosprezar o conhecimento, ainda que insuficiente ou supérfluo que os jovens debitam, sabendo que alguns irão com certeza beneficiar deles. No entanto existe na sociedade actual uma onda sub-reptícia e perigosa que remete para o desejo desse passado sombrio de antes de Abril, por desconhecimento ou descrença sobre as reais causas do movimento popular clandestino que levou à decisão de intervir assumida pelas Forças Armadas para a instauração da liberdade; sendo a liberdade outra questão que exige nova reflexão pedagógica. As palavras não são isentas da nossa responsabilidade sobre o seu significado. Ser livre não é ser libertino, nem anárquico. Ser livre é pensar e agir para a dignificação e o respeito comuns. Em causa estão as linguagens e o modo como queremos que as mensagens se tornem credíveis e aceites.
A linguagem mais eficaz é a da verdade. Alguém chamou â época em que vivemos o tempo da «não verdade». O tempo em que os factos se falseiam ou deturpam por uma má utilização dos processos de comunicação, ou por acções curruptivas e intensões obscuras.
Relativamente ao assunto deste texto, a «verdade» é posta a circular das mais diversas maneiras, e, em época de comemoração, a História evidencia-se pelos testemunhos de quem viveu in loco, os acontecimentos passados e, sobretudo experienciou a opressão, a perseguição, a miséria, os abismos sociais e a tortura das prisões, apenas por se falar da pobreza, da pressão do dia a dia, da corrupção evidente, da impossibilidade de concretizar sonhos básicos de realização pessoal. A guerra no Ultramar era um tema crucial e por aí começou a vontade de se lhe dar um fim e mudar o país.
Até aqui são factos gerais do conhecimento comum.
Penso que falta trazer aos jovens as histórias pessoais e as emoções de muitos que até agora permanecem desconhecidas. Falta contar-lhes os factos a partir dos sofrimentos e mágoas que lhes marcaram a vida. Falta abordar as canções, o riquíssimo espólio de canções que apontam e contam de modo expressivo os meandros da luta que na pré-revolução iam alertando o povo para a necessidade da mudança. Que significam «Os meninos do Huambo», que significa, «o vento cala a desgraça, o vento nada me diz», que significa «Grândola, a tua vontade».
A figura do ditador impôs-se como o grande agente do descalabro em que o país vivia. No entanto foi a estrutura do regime e a classe política, de um modo geral, que desencadearam um processo de corrupções e de crimes cujo culminar residia na PIDE,a polícia do Estado que impedia a livre expressão, perseguia os cidadãos e condenava à tortura os prisioneiros.
A ditadura era, e é, dos regimes mais temíveis que alguma vez existiram. Nada resolve pactuar com sonhos revivalistas., uma cautela que se aconselha aos jovens pouco informados. Recomende-se a História pelas vozes daqueles que a terão vivido e sofrido, pelos vários testemunhos que a Literatura e a Sociologia nos têm legado, procurando, por dentro dos absurdos e controvérsias, a verdade consentânea com as legítimas necessidades duma digna subsistência do ser humano.
O título desta crónica é uma memória que guardo dum texto que escrevi para crianças datado dos anos 80, que, por via de Maria Mendonça, foi lido na RTP, por Eunice Muñoz, num programa infantil de Maria Alberta Menéres. A «velhinha História» era uma senhora sábia que procurava ensinar às crianças as correctas ilações a extrair dos acontecimentos do passado. Dizia ela que a História não deve apenas contar os factos, mas sobretudo interpretá-los e submete-los à observação dos possíveis erros do presente e à respectiva crítica.
Saramago referia que o conceito de História era um conceito abstracto, porque a verdadeira História são os homens. Pensemos nisso.
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