Major-médico José Agostinho Rodrigues, do Funchal, notabilizou-se na batalha de La Lys

Rui Marote

O madeirense José Agostinho Rodrigues, natural do Funchal, foi condecorado pelo rei Jorge há 106 anos, pela bravura demonstrada na batalha de La Lys, na qual participou o Corpo Expedicionário Português, na 1ª Guerra Mundial. Esta batalha travada de 7 a 29 de Abril de 1918, e nela os Aliados tiveram de enfrentar a ofensiva militar germânica, ao norte da fronteira franco-belga, na Flandres.

A história é fascinante e consta dos Arquivos Militares portugueses, mas é desconhecida de muitos.

A Batalha de La Lys foi difícil para as tropas portuguesas, e considerada por alguns como uma derrota, mas que não deixou de contribuir também para a vitória final dos Aliados.

Há quem considere ainda a Batalha de La Lys como tendo sido “o Verdun português”, por causa do sofrimento que as tropas lusas passaram. Um pouco exagerado, mas mesmo assim, este não foi nenhum “passeio no parque”.

O major médico sediado em Merville, José Agostinho Rodrigues, escreveu múltiplas páginas sobre o conflito, mencionadas num interessante artigo do Lusojornal, da autoria de António Marrucho, publicado a 2 de Fevereiro do corrente ano, e que nos serviu para conhecer a história deste ilustre madeirense que aqui mencionamos.

As cartas foram endereçadas ao Chefe do Serviço de Saúde (S.S.) do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.).

O major-médico José Agostinho Rodrigues procurou evitar vítimas entre quem estava sob seu comando, além de preservar arquivos e evitar perdas financeiras.

A descrição começa em Merville antes do dia 9 de Abril. José Agostinho Rodrigues já previa as consequências da batalha, antecipando o que iria acontecer. Dando conta de baixa moral das tropas portuguesas, esgotadas e abatidas, o madeirense recorda as explosões das granadas de grosso calibre e o troar da artilharia.

Trabalhando num Hospital de Sangue, o madeirense recorda a chegada do primeiro ferido português, cerca das sete e meia, com uma perfuração na barriga.

O militar procura evacuar os soldados que iam chegando e também civis aterrorizados pelas explosões verificadas na cidade próxima. Comandando uma evacuação para St. Venant, pela estrada de Hazebrouck, lá se salvaram várias mulheres e crianças que “vibravam de pavor”.

Rodrigues utilizou dois carros que tinha ao serviço do seu hospital. A evacuação prosseguiu ao longo da manhã. Mas as duas ambulâncias não chegavam para evacuar todos os que necessitavam de transporte.

Por volta das 11 horas um capitão de uma brigada de infantaria informou o major-médico que a situação na frente estava “absolutamente perdida” e que as tropas da frente estavam bloqueadas por fogo de barragem, e ainda lutavam com falta de munições.

“Na esquerda do nosso sector, os inglezes tinham cedido (…) o inimigo tinha avançado, cercando as nossas forças e (…) quem não fora morto tinha sido aprisionado, de certo, a essa hora”, narra.

E o bombardeamento na retaguarda continuava, estando as localidades de Estaires, La Gorgue e Lestrem provavelmente já ocupadas, e que dum momento para o outro chegariam os alemães a Merville entrando pela porta do hospital, recorda o militar e médico.

“Todo o serviço era feito debaixo dum bombardeamento pausado, metódico, continuo. Um ou dois canhões de grosso calibre, de cinco em cinco minutos a princípio, e depois de trez en trez minutos, lançando uma granada sobre Merville, que ao explodir, produzia um tremor de terra…”, lembra, nas páginas escritas.

“À medida que avançava o dia, numerosos oficiais e praças iam afluindo ao H.S. n°1, aterrados, e sob influência da excitação intensa que os levavam a julgarem-se doentes. Eram extenuados pelo susto, pela marcha, pelo terrível choque do bombardeamento que não tinha fim…”; isto para além de um sargento que sofreu um ferimento na cabeça. O “shell shock”, era no entanto, uma realidade junto de muitos dos soldados, que já não podiam aguentar mais.

“Informavam que os inglezes na nossa esquerda tinham cedido, que os alemães introduziram-se na brecha, e no ponto de junção deles e dos portugueses tinham cercado os nossos que estavam mortos ou prisioneiros podendo apenas salvar-se os que tinham retirado a tempo. Mas acrescentavam, avançar devagar e apenas chegaram a Laventie que estaria tomada às 14 horas”, recorda, nos seus escritos, o major, que teve ainda de enviar ambulâncias para ir buscar feridos graves.

Vendo que era mesmo necessário evacuar todo o Hospital, recorda:  “Mas pensei que o papel daquela casa lhe não permitia nas condições existentes abandonar os aflitos que chegavam. Depois da tragédia havia muito necessitado que estava chegando, e chegaria nos dias seguintes, cheio de fome e de cansaço e por ventura ferido; havia muito civil que estava correndo ao hospital a pedir socorro para os feridos vítimas do bombardeamento; muitos inglezes feridos chegavam e chegariam enquanto o S.S. inglez se não organisasse…

Por isso, tentou deixar um Pronto-Socorro que acudisse a quem necessitava enquanto tal ainda fosse sustentável.

Perante imensas dificuldades e sem querer deixar arquivos nem material cirúrgico que não devia cair nas mãos do inimigo, o major-médico conseguira entretanto reunir cinco ambulâncias e comandou uma retirada da “fúnebre” cidade de Merville, levando todavia consigo muito material importante. Ainda tentou voltar atrás para ir buscar mais.

Dando conta, todavia, de “confusão” e “atabalhoamento geral”, num testemunho interessante e impressionante, José Agostinho Rodrigues reconhece erros e problemas, assume culpas por a assistência aos feridos não ter sido melhor, e apresenta dezasseis propostas de louvor para quem se esforçou, sob ordens suas, por “manter a dignidade e a honra do nosso serviço de saúde perante o estrangeiro (…)”.

Este major-médico formou-se como cirurgião médico pela escola de Lisboa, tendo sido promovido a tenente-médico em 15 de Novembro de 1894.

Tinha nascido no Funchal na freguesia de São Martinho, a 1 Outubro de 1864, filho de Francisco Rodrigues e Ana de Jesus Rodrigues.

Embarcou em Lisboa, a 22 de Fevereiro de 1917, casado com Matilde Carolina Rodrigues; era pai de uma filha no momento da partida da capital portuguesa, onde residia na rua de S. Bento n°510, 2°Esq, conforme cita António Marrucho, no Lusojornal.

“Ao embarcar fazia parte do serviço de saúde, sendo seu posto no H.S. n°1 Ambulância 2. De Major-Médico, foi promovido a Tenente-Coronel a 17 de setembro de 1917”, recorda o autor do artigo que nos trouxe ao conhecimento deste militar madeirense.

José Agostinho Rodrigues recebeu várias distinções, entre elas a Ordem militar de Avis, segunda classe, a 27 de Dezembro de 1917.

“Depois dos acontecimentos descritos no relatório, foi nomeado Chefe dos S.S. da 1era Divisão a 25 de Junho de 1918. Um mês depois, a 23 de Julho, foi nomeado Presidente da Junta Médica de Inspeção. Nomeado Coronel-Médico no dia 1 de Janeiro de 1919, foi abatido dos serviços do CEP a 20 de Março de 1919.

Recebeu a Medalha comemorativa da campanha de França e foi louvado pelo “muito zelo, dedicação, inteligência demonstrada na organização e direção dos serviços como Chefe inspetor das tropas e pelo trabalho de La Lys ao levantar o nível das tropas prestando assinalável serviço ao CEP e à Pátria”.

Foi condecorado pelo rei Jorge V de Inglaterra como Comendador da Ordem de Saint George e recebeu a “Croix de Guerre avec étoile vermeil”, da França.

Depois da Grande Guerra, foi subdirector da Direcção geral dos Serviços Médicos do Ministério da Guerra.

Colaborou em vários jornais funchalenses, e entre as suas publicações conta-se o trabalho “As questões vinícolas e sacarinas da ilha da Madeira”, de 1927.

Morreu em Lisboa a 14 de Abril de 1938.


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