A pandemia da discriminação

  1. Parecia-me impensável ter que escrever este texto por causa da discriminação que alguns nossos conterrâneos estão a exercer sobre as pessoas infetadas com coronavírus designados de «casos importados» pelas autoridades de saúde. São os casos de pessoas que vieram de fora no último mês e que após o período de quarentena apresentaram sintomas suspeitos de covid 19, mediante a aplicação dos testes regulamentares estão a dar positivos. Em face disto e por serem pessoas que vieram de fora da ilha, estão a ser discriminadas e até perseguidas por essa situação. Uma coisa absurda e impensável.
  2. Quem tem culpa de estar doente? Quem tem culpa de ter vindo de algum lugar infetado com a doença covid 19? Não estamos todos no mesmo barco? Não podia ser qualquer um de nós, dado que somos uma terra de viajantes? Quem se pode babar de estar imune? Quem pode dizer que hoje está bom e amanhã pode estar infetado? – Ninguém, estamos todos no mesmo barco ou somos todos lutadores ou então vai ser muito mais difícil chegarmos à vitória…
  3. Nunca imaginei que ainda estivéssemos no tempo do bode expiatório e das bruxas que eram queimadas na fogueira. O mal disto vem detrás, andamos há muitos anos ser bombardeados com a ideia de que para todas as nossas asneiras, teria que haver sempre um culpado, que não estava na ilha, mas sempre fora dela, o povo inteiro aprendeu como se faz. Por isso, agora diante deste aperto da pandemia, toca discriminar as vítimas e porque não culpabilizá-los. Perante isto caiem por terra todas as críticas que temos presenciado contra o Trump e o Bolsonaro. Não quero crer que existam muitos madeirenses com Trumps e Bolsonaros dentro de si.
  4. Neste sentido, começo a ficar ainda mais convencido da verdade do testemunho da primeira mulher madeirense de Câmara de Lobos, quanto à forma como lhe contaram que estava contaminada com o covid 19. As palavras da holadesa Reini, a primeira turista que deu positivo coronavírus na Madeira, também não deixam muito bem no retrato a Madeira: «a situação foi traumatizante» disse. Não coloca em causa os profissionais de saúde, mas alguns elementos. Nas entrelinhas há muita coisa que pode ser lida e parece que não abona a nosso favor. Na conferência de imprensa deste dia 14 de Abril de 2020, com a habitual presença do secretário regional da Saúde e Proteção Civil, Pedro Ramos, e da vice-presidente do IASaúde, Bruna Gouveia, no período das perguntas dos jornalistas, foram confrontados com a situação de discriminação que anda a acontecer com as pessoas infetadas com o coronavírus que na sua maioria são os tais «casos importados», incluso os dois novos casos deste dia.
  5. Este ambiente é perigoso. Está a revelar o pior da Madeira. Não sabe lidar com o que nos chega de desagradável. Este comportamento é inadmíssivel e como reconhece a holadesa Reini, «se tivesse sintomas nunca teria viajado», obviamente, que os outros devem pensar o mesmo, porque ninguém no seu perfeito juízo deseja espalhar doença, prejudicando os outros ou realizando ações que desestabilizem o ambiente alheio. O normal é assim. O anormal pertence aos anormais, esses devem sim ser tratados em conformidade.
  6. Persistindo este ambiente de discriminação face aos doentes de coronavírus vindos de fora, somos levados a considerar que estes doentes devem ser de segunda e se nos aparecerem – rezo para que não apareçam – os contaminados cá dentro em maior número, serão doentes de primeira e aceites compassivamente. Enfim, à parte esta brincadeira, vamos serenar e pensar que a pandemia já nos afetou a todos. Felizmente, a maioria de todos nós anda com todos os cuidados possíveis e não temos sintomas, mas de uma forma ou de outra andamos todos afetados. Uma, pela incerteza e pelo fim disto que não vemos nem sequer uma nesga de luz ao fundo do túnel, outra pelo medo de ser apanhado pela doença, dado que é um vírus manhoso e que escolhe todas as formas possíveis para atacar sorrateiramente. E qual é a criatura que pode gabar-se que não perdeu nada ainda. Todos estão a perder. Somos todos perdedores. Temos que fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para que as perdas no final sejam debeladas e todos possam voltar à sua vida com segurança.
  7. Quem discrimina, goza ou se regozija por uma pessoa doente tenha vindo de onde vier, está doente mentalmente. A doença coronavírus mesmo que não nos ataque (oxalá que não), é uma doença da humanidade inteira, qualquer situação de doença em qualquer pessoa deixa-nos doentes. Ainda é preciso mais para nos pôr doentes estarmos a ver todos os dias o rol imenso de pessoas em cuidados intensivos rodeados de máquinas, médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar esgotadíssimos sem mãos a medir para salvarem os seus pacientes em tremenda agonia. As mortes de centenas e milhares de idosos (pelo meio algumas pessoas mais novas e até crianças) são bastante de nós que está a morrer. Por isso, deve comover-nos e levar-nos à conversão as imagens de salões mortuários repletos de caixões por esse mundo fora. É preciso mais dureza ainda do que ver valas comuns com caixões a serem arrumados uns sobre os outros para receberem terra em cima deitada por potentes catrapilas. E o que dizer dos corpos a serem transportados por máquinas empilhadoras… Algém acha, porventura, que ainda é preciso mais para nos impressionar e fazer moderar a forma como nos olhamos e encaramos aqueles estão à nossa volta? – Com esta lição que a existência nos está a dar, não devia ser preciso mais nada, para que nos tornemos luz de compaixão, instrumentos de tolerãncia e de compreensão perante as desgraças que nos atingem. É preciso matar o vírus do ódio e combater a propagação da discriminação.

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