Lendo Vieira…

Há muitos anos que leio o Padre António Vieira (1608-1697). Sermões, cartas, a ‘História do Futuro’ e outros textos.

Neste tempo de confinamento social, a leitura ocupa-nos, distrai-nos e enriquece-nos. Acabei de ler os sermões dedicados a São Roque pelo insigne pregador jesuíta.

São Roque era o padroeiro da Casa Professa da Companhia de Jesus em Lisboa, composta por Igreja e edifício residencial. O santo, protector contra a peste e epidemias, por voluntariamente cuidar de doentes infectados, ter sido contagiado e se manter isolado num bosque, mereceu grande devoção popular ao longo de vários séculos, sendo o orago de muitas igrejas e capelas.

Embora não se saiba, com rigor, as datas do seu nascimento e morte, é certo ter vindo ao mundo em Montpellier, na França, no século XIV, a centúria da Peste Negra, da qual teria também sido vítima em 16 de Agosto, num ano entre 1376 e 1379.

São conhecidos quatro sermões do Padre António Vieira, dedicados a São Roque: 1642, 1644, 1649 e 1652. Em todos, a peste é tema recorrente, aludindo o pregador aos méritos e milagres de São Roque.

«Tal o grande imitador da caridade de Cristo S. Roque, que do sofrimento de suas enfermidades fez merecimento de nossa saúde, e morreu ferido de peste sem remédio, para que tivessem remédio os feridos de peste.» (Sermão de São Roque, 1642, IV)

Apesar do topos da peste e dos louvores a São Roque, Vieira, nestes sermões, como em tantos outros, não deixou de reflectir e advertir, e até zurzir, sobre vivências e problemas da sociedade do seu tempo. Sirva de exemplo o sermão pregado na Capela Real em 1644, por ocasião do aniversário do nascimento do príncipe D. Afonso, no qual dedicou particular atenção às questões políticas da Restauração, sublinhando a importância da verdadeira fidelidade a D. João IV e o imprescindível empenho dos portugueses na defesa do Reino, face às tentativas espanholas de reconquistar Portugal.

«Não vemos a moderação verdadeiramente de pai da pátria, com que el-rei, que Deus guarde, estreita os gastos de sua real pessoa e casa? Não vemos a liberalidade verdadeiramente real, com que a rainha nossa senhora se priva de suas rendas, e se aplica aos exércitos e fronteiras? Pois se assim se estreita a grandeza dos reis, porque não aprenderá a se estreitar a vaidade dos vassalos? Façamos como libertados, pois eles fazem como libertadores.» (Sermão de São Roque, 1644, III)

Em 1649, Vieira voltou a pregar na Capela Real, sob a invocação de São Roque. Havia peste no Algarve. O poderoso advogado era de novo chamado para ajudar a debelar «o mais desgraçado de todos os males, a peste». O orador sacro justificava assim a sua afirmação: «porque nas outras enfermidades o maior benefício que vos pode fazer quem vos ama, é estar convosco: na peste a maior consolação que vos pode dar quem amais, é fugir de vós.»

Apresenta-nos, de seguida, um cenário da peste com forte realismo dramático, que ainda hoje nos comove:

«Os portos, e as barras fechadas, e os navegantes alongando-se ao mar, e não só fugindo da costa, mas ainda dos ventos dela: os caminhos por terra tomados com severíssimas guardas: o comércio e a comunicação humana totalmente impedida: as ruas desertas e cobertas de erva e mato, como nos contavam e viram nossos maiores nesta mesma cidade de Lisboa: as portas trancadas com travessas e almagradas: as sepulturas sempre abertas, não já nas Igrejas nem nos adros, senão nos campos, e talvez caindo nessas sepulturas mortos, os mesmos vivos que levam a enterrar os outros defuntos: a fazenda adquirida com tanto trabalho, guardada com tanta avareza, estimada com tanta cobiça, já desprezada, e já lançada ou alijada, como na extrema tempestade, não à água, senão ao fogo, e vendo-se arder sem dor: o amor natural do sangue (como todo o outro amor) ou atónito ou esquecido: os irmãos fugindo dos irmãos, os pais fugindo dos filhos, os maridos fugindo das mulheres, e todos querendo fugir de si mesmos, mas não podendo, porque a saída é indispensavelmente vedada e impossível. A razão e a piedade tem ali cruelmente presos e sitiados os miseráveis, para que se matem antes a pé quedo entre si, e não saiam a matar os outros: mas, oh que dor! oh que angústia! oh que aflição! oh que ânsia! oh que violência! oh que desesperação tão mortal! E nem ainda para cuidarem os homens, ou pasmarem deste seu estado, lhes dá tempo, nem lugar a morte.» (Sermão de São Roque, 1649, VI)

Passados mais de três séculos, a Covid-19 confronta-nos com medo e morte, cidades sem movimento, gente enclausurada, ruína económica, incertezas, infortúnios e estranhos desafios. Descrições deste tempo ficarão também na Literatura.

A voz do pregador já não se ouve no púlpito. O sermão como género literário já não se usa. Mas o ardor da oratória de Vieira, o poder da sua palavra, a força desmedida da sua fé, a coragem, o saber e a grandeza da sua personalidade e da sua obra continuam a alentar quem deste tempo cruel pretende pausa culturalmente enriquecedora para o novo mundo que há-de emergir, naturalmente diferente do actual e onde se espera que a ciência e a tecnologia estreitem relações com os saberes das Humanidades e o paradigma económico se altere radicalmente, em benefício da humanidade e da Terra.