Calmaria no Parlamento

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnO Parlamento da Madeira está diferente. Bem diferente. Na forma e no conteúdo. O que não é novidade, seria sempre diferente quando passou a ter menor representação dos ditos pequenos partidos, além de que o CDS, que antes estava na oposição, passou a estar em sintonia de discurso com o PSD, fruto do acordo de governação. Também está diferente por isso. Uma coisa é criticar o poder estando de fora, outra coisa é criticar o poder quando se é poder. Simplesmente, não se pode.

É cedo para saber se o Parlamento está melhor ou se está pior. Para já, está diferente, como se viu no debate sobre o Programa de Governo. Foi governo quanto baste, sem precisar de ser muito melhor, para tão pouca oposição, que na globalidade parece ter ficado pior. Até o presidente Miguel Albuquerque teve dificuldade para gastar aquele tempo e decidiu-se pela “meteórica” intervenção final.

É uma experiência nova, já experimentada a nível nacional há muitos anos, pelo que se compreende que os madeirenses necessitem de um período de adaptação, mais do que os deputados que assumiram este compromisso de coligação. Mas também eles, os deputados, ainda andam meio às “aranhas” com esta ”cordialidade” política, ao ponto de Jaime Filipe Ramos, o líder parlamentar social democrata, sentir necessidade de “sacudir” alguma coisa no discurso final do debate quando afirmou que cada partido tem a sua identidade, lembrando (os que eventualmente têm amnésia momentânea) que, também eles, os partidos, têm percursos diferentes. E também não colocando de parte eventuais diálogos com outros deputados (não disse partidos) de outras forças fora da coligação, que em termos parlamentares já são poucas, no caso o PS, JPP e PCP com deputado único.

Aparentemente, como sendo politicamente correto para a opinião pública, nem que seja para contrariar os que dizem que este “casamento” não vai durar muito, os do PSD são do CDS desde pequeninos. Os do CDS são do PSD desde que nasceram. Faz lembrar aquelas transferências futebolísticas, em que os jogadores chegam a um novo clube e dizem que este era o sonho da vida quando juraram “amor eterno” ao clube anterior. Tudo uma questão de números. No futebol, mas na política também. E são números elevados para quem, um dia, se der ao trabalho de fazer as contas.

Isto até deve fazer confusão dentro dos próprios partidos, mas do ponto de vista de durabilidade para quatro anos, só mesmo assim. Perfeitamente compreensível no contexto e depois de consumado o acordo. Para ter aquilo que se classifica como estabilidade é preciso pagar.

Claro que existiriam alternativas, talvez mais de acordo com a defesa da matriz dos dois intervenientes, como por exemplo acordos de incidência parlamentar, umas vezes com o CDS, outras quem sabe com o JPP, embora seja compreensível que Albuquerque não quisesse ficar, a cada diploma, com o “credo na boca”, prefere ter garantido que passa tudo no Parlamento.

O modelo foi este, a democracia funcionou e não há nada a dizer quanto a isso. A fase seguinte é quem está no governo governar bem e quem está na oposição estudar bem os documentos e questionar com conhecimento de causa para poder apresentar alternativas credíveis. O que, como se viu, nem sempre é fácil, uma vez que os partidos são tão iguais que, até eles, têm dificuldade de apontar as diferenças.

Estranha-se e depois entranha-se. Por enquanto, estranha-se. Claro que faz alguma confusão ver o Dr. Mário Pereira falar das energias alternativas, não o sabíamos com tamanha “bagagem técnica” para dissertar sobre o assunto, mas nunca é tarde para aprendermos que quem sabe, sabe, quem sabe guardando as energias para colocar ao serviço das novas tarefas que terá no Serviço Regional de Saúde, que a avaliar por aquilo que disse nos últimos anos, dará certamente muito trabalho para retificar o que Pedro Ramos andou a fazer por ali, tendo em conta as críticas que o secretário, o mesmo do mandato anterior, recebeu da bancada centrista. E quando falou de saúde foi para desancar no Governo da República. Mudam-se os tempos, mudam-se as estratégias, mesmo que as vontades possam manter-se num cantinho bem guardado.

Mas obviamente não é o momento para “desenterrar” fantasmas, este governo não parece ser, garantidamente, para cair. Não sei se haverá condições para dizer o mesmo dos partidos que o suportam. São outras contas para fazer lá para 2023. Para já, parecem seguros do que estão a fazer e isso chega até prova em contrário, ou seja, até haver deslizes ou até a massa crítica interna ter força para espernear para o exterior todas as dúvidas que já andam pelos corredores. É o “fogo que arde sem se ver”. Mas também, como diz o povo, “onde há fumo, há fogo”. E sabemos que há nos dois lados.

Mas no meio de um novo quadro político, também é preciso que a oposição seja acutilante, incisiva naqueles que são os assuntos determinantes para o futuro da Madeira. Mas acontece um grande problema com o maior partido da oposição, o Partido Socialista, que assentou as suas estratégias para ser poder, fruto de uma mobilização que não era habitual, além de apostar todas as “fichas” em Paulo Cafôfo. E esta realidade de ter perdido por pouco, como que ficando em segundo à beira da meta, mesmo com uma subida substancial de votos e deputados, fez com que o chamado “balde de água fria” tivesse naturalmente os seus reflexos. Demora a passar e fazer oposição, nestas circunstâncias, não é fácil. Talvez tivesse sido recomendável, neste debate, uma mistura entre os que têm experiência parlamentar e os outros. Talvez o resultado pudesse ter sido outro. E o grande problema do PS é precisamente ter a capacidade de não deixar esmorecer a onda criada nas últimas eleições e nas quais capitalizou um resultado importante para o partido, embora insuficiente para governar.

É preciso ter estofo para contrariar aquela ideia do “era agora ou nunca”, para que nos próximos desafios não se confirme. E não será fácil, é preciso fazer mais para que Paulo Cafôfo assuma um papel de liderança no combate político, que vá além da exposição de objetivos, que “ataque” os pontos fracos da governação com um discurso forte, que se veja e se sinta que tem conhecimento, e que convença o eleitorado que mantém como deputado e provavelmente, num futuro, como líder do PS-Madeira (filiado já está), aquele carisma que teve como presidente da Câmara. Julgamos que este é um grande desafio que se coloca a um PS talvez se tenha preparado para ser poder e não tanto para estar na oposição, onde também é preciso preparação.

No fundo, todos os partidos têm o seu problema. E a dúvida que se coloca, ao PSD, CDS e PS, é qual dos partidos consegue manter a sua identidade intacta no meio deste novo enquadramento político.

O ano de 2023 pode ser muito tarde para alguns. Ou para todos…


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