Adriana

Hoje vou-vos contar uma história.

Penso que não vão acreditar. A mim, pelo menos, custa muito a acreditar.

Há uns meses estava na casa dos meus pais à conversa com a minha mãe. Adoro conversar com a minha mãe. A televisão estava ligada, som de fundo de uma qualquer troca de ideias nossa, sobre tudo e sobre nada. O programa era o Linha Aberta da SIC. Nunca o tinha visto e nunca mais vi desde então. Mas nesse dia, o nosso sotaque madeirense soava no programa e, como madeirense que sou, as antenas ligaram-se logo.

O sotaque madeirense era da Gorete Sousa.

A Gorete tinha dezanove anos quando ela e o seu marido, um casal do Estreito de Câmara de Lobos, tiveram a bebé Adriana, a sua primeira filha. O dia 15 de Janeiro de 1977 terá sido para eles de alegria desmesurada, o dia que lhes ficará para sempre na memória como aquele em que souberam o que era verdadeiramente amar.

Por agruras do destino, a bebé Adriana é – ou fica já desde o nascimento, não estou certa – internada no Hospital dos Marmeleiros durante três meses e meio. É levada depois para o Hospital de Santa Marta em Lisboa, por causa de um sopro no coração. À mãe nunca é dito que a Adriana sofre de um problema grave, mas é-lhe dito que não a pode acompanhar, porque a bebé tem de levar oxigénio. Nem percebo o que isto quer dizer.

E agora começam os contornos (ainda mais) dantescos da história. Penso que não vão acreditar. A mim, pelo menos, ainda custa muito a acreditar.

A Gorete, oficialmente, nunca mais sabe da sua menina.

Dói escrever isto. Não imagino o que dói passar por isto.

Gorete nada mais sabe oficialmente, mas recebe uma carta particular de uma enfermeira do Hospital de Santa Marta, a enfermeira Lídia que, estranhamente, vem a revelar-se uma das protagonistas desta história improvável. Esta enfermeira informa-a que a operação da Adriana havia corrido bem e, em cartas posteriores, vai dando conta da evolução positiva da menina, de como é a vida da bebé no hospital, enviando fotos aos pais que haviam de ter disfarçado o vazio deixado pela ausência de quem tanto amam.

Até que, a 16 de Agosto do mesmo ano, a enfermeira Lídia informa os pais da Adriana, também por carta, que a bebé havia falecido. Que o funeral já havia acontecido. Abrir esta carta. Meu Deus, abrir esta carta…

Os pais vão ao registo civil informar o falecimento da sua primogénita e iniciam o penoso e dilacerante processo de luto.

Volvidos dezanove anos, de volta ao registo civil por qualquer outra razão, descobrem que não há averbamento de óbito na certidão de Adriana. Então, o que aconteceu a Adriana?

As perguntas sucederam-se, as dúvidas aumentaram e procuraram-se respostas. O Diário de Notícias faz uma grande reportagem e a SIC pega no assunto, pelas mãos de uma jornalista que fez desta a sua história.

Como é que o Hospital de Santa Marta, hospital onde a criança deu entrada, não tem informações a dar? Recusou-se mesmo a proferir qualquer declaração ou a fornecer qualquer informação.

Que papel tem esta enfermeira? Primeiro informa que a operação correu bem e depois que a bebé morreu da operação. Envia fotos da bebé sendo que, em pelo menos uma, é notório que a Adriana se encontra num berço que não é hospitalar. A enfermeira recusa-se a falar para as câmaras, mas fala com os pais. De nada serviu. Nada esclareceu.

O que se descobriu? Nada. Absolutamente nada.

E desde que souberam que a Adriana poderia estar viva até hoje passaram mais de vinte anos. E o que sabem agora? Nada. Absolutamente nada.

São vinte anos de incerteza, de dúvida, de será que ela está viva?

Sentada na cozinha dos meus pais, os meus olhos, os olhos da minha mãe, fixados na televisão. Entreolhávamo-nos incrédulas. Sem mais nada do que como é que isto é possível.

Como é que não se moveu Céu e Terra para descobrir o que aconteceu à Adriana? Como é que se deixa uns pais sofrer deste modo? Como é que não há respostas de ninguém? Como não há inquéritos e investigações? Como é que não há respostas?

Em grande plano, a Gorete. Voz pausada. Nos três meses e pouco que ela esteve internada, todos os dias eu ia vê-la, dizia. Nos seus olhos, uma tristeza enraizada, um vazio sofrido de ansiedades que moem, noites de insónia e lágrimas. E saudade. Saudade de ver a sua bebé, que mesmo internada, estava ali com ela.

Eu queria saber uma verdade. É só isso, continua ela.

E nós todos deveríamos querer saber uma verdade. Deveríamos exigir essa verdade por ela.

Porque ela não sabe nada.

Eu disse-vos que não iam acreditar. A mim, pelo menos, custa muito acreditar.