A César o que é de César

A 24 de Julho do corrente ano de 2019, o Presidente da República anunciou solenemente o convite feito ao arcebispo madeirense José Tolentino Mendonça, para presidir à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia 10 de Junho de 2020, Dia de Portugal, a decorrer no Funchal, convite que foi aceite. Sagrado Bispo a 28 de Julho de 2018 e incumbido recentemente de presidir ao Pontifício Conselho para a Cultura, no qual se inserem o Arquivo Secreto e Biblioteca do Vaticano, D. Tolentino Mendonça é uma personalidade importante da hierarquia superior da Igreja Católica. Como madeirense e católico que sou, apraz-me registar o reconhecimento público que lhe tem sido prestado, não só pelos cargos religiosos que tem desempenhado, mas também e sobretudo pelas qualidades intelectuais e humanas que tem revelado. Não me move qualquer bairrismo muito em voga na Madeira, alimentado por aqueles que têm manipulado o sentimento autonómico no sentido do confronto permanente com o território continental, catalogando os madeirenses como povo superior.

Sendo assim, e correndo o risco de ser politicamente incorrecto, atrevo-me a remar contra a corrente, afirmando a minha discordância relativamente ao convite a um membro da alta hierarquia da Igreja Católica para presidir a um acto que é e deve ser claramente secular. A religião católica é maioritária no país e a prática católica não pode confinar-se aos templos. Mas Portugal não tem um regime político confessional; a Constituição Política actual não o permite e nem a Concordata com a Santa Sé de 1940 o afirmava, e muito menos as revisões da mesma, de 1975 e 2004. Este “porreirismo” nacional pode ser à primeira vista agradável mas é susceptível de se converter num nacionalismo perigoso. Ao longo da História, sempre que o Estado e a Igreja não quiseram separar as áreas especificas das suas respectivas competências, um deles ficou a perder, geralmente a Igreja. Isso aconteceu na monarquia constitucional do século XIX e durante o Estado Novo salazarista, para não recuar mais no tempo, nem avançar demasiado no pós 25 de Abril de 1974, na Madeira. Pelas mesmas razões, discordo do financiamento da construção da capela das Babosas, no Monte, que foi assegurado na totalidade pelo Governo Regional, no montante de 400.000 euros, capela cuja utilidade é muito discutível, a meu ver, a não ser por razões eleitoralistas. “Timeo Danaos et dona ferentes”, (Tenho medo dos gregos, mesmo quando oferecem presentes), como muito bem escreveu o poeta latino Virgílio, na Eneida, a propósito do Cavalo de Tróia.