José Viale Moutinho, Inóspita Paisagem

Leonor Coelho, professora universitária na UMa.

 *Docente na Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira/Investigadora no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa (Projecto: “Viagem e Utopia”)

Quarenta e oito composições estróficas espraiam-se no último livro de poesia de José Viale Moutinho. Publicado pela Editora Labirinto em junho de 2019, e recentemente apresentado na Feira do Livro de Braga, Inóspita Paisagem vem a lume na coleção Contramaré. Quer a escolha do título, quer a Editora selecionada, quer, ainda, a denominação sugestiva da coleção estabelecem, de imediato, um pacto de leitura com o receptor do texto.

A capa a preto e branco apresenta uma paisagem ressequida, uma árvore mortiça, nuvens a pairar sobre um locus desolador, anunciando o paratexto a palavra disfórica que o livro encerra. Inóspita Paisagem dirá a incomunicabilidade, a dissonância e a morte, como bem expressa o poema “Deserto portátil” (p. 29), recuperando, ainda, outros topoï da escrita moutiniana: o diálogo com outras linguagens artísticas, a visão satírica dos tempos, a demanda por renovadas geometrias do mundo.

Sob o signo da revistação de lugares e tempos; sob o signo da memória de pessoas e circunstâncias; sob o signo da incerteza e do cepticismo, Viale Moutinho convoca épocas e cartografias que são essenciais para a sua ‘arte poética’.

A poesia de Viale Moutinho é uma escrita em (re)contrução, cuja vírgula em final de cada composição poética faz do(s) poema(s) do autor uma viagem em devir: um périplo pelos lugares que conheceu, um caminho por tempos de navegação global, um trilho por lembranças, retratos e observâncias. Nesta deslocação, a voz do texto, que não raras vezes se (con)funde com a voz autoral, aponta algumas críticas, indica inúmeros sentidos e propõe múltiplas leituras.

Revisito, regularmente, a escrita deste autor. Procuro deambular pelos desassossegos que o escritor imprime em cada página dos seus livros. Viajo, assim, por questões culturais, identitárias, sociais e ideológicas. Isto não significa que não esteja atenta à beleza da palavra, à cadência do verso, ao diálogo com outras vozes. Ao deleite cultural, soma-se, efetivamente, o prazer da estética e da sua escrita.

Apraz-me registar o diálogo com a pintura. O livro abre com um poema dedicado a Fernando Lanhas. O escritor já tinha publicado Retrato de Braços Cruzados – com desenhos de Fernando Lanhas. (Re)conhecido pela linguagem abstrata, pela multiplicidade de interesses que marcam o seu percurso e pela busca incessante do conhecimento, o pintor, que também foi arquitecto, é, desta forma, homenageado. Viale Moutinho convoca, também, Carlos Botelho. Pintor, ilustrador e pioneiro na banda desenhada nacional, este artista deixa-nos, em particular, inúmeros retratos de Lisboa. Assim, também o primeiro poema do livro virá retratar a cidade, nos seguintes moldes: “Do alto a cidade tem as suas longas páginas//expostas, quantas flores vivas se desfolham//para que Lisboa renasça em cada poema” (p. 7). Note-se que o título do poema de Viale Moutinho remete para a ideia do retrato: “Imagem nocturna de Lisboa vista do alto” (p. 7) acentua, assim, o diálogo intertextual da escrita moutiniana. Por sua vez, o artista João Vieira (Rodrigues) é mencionado no poema “Um quadro de João Vieira”. Ligado ao grupo do Café Gelo, é, sobretudo, reconhecido pelo seu experimentalismo interdisciplinar. Ao ler-se no poema “Assim se dispõem as frases numa tela” (p. 32), a voz do texto parece referir os caminhos plásticos das experiências letristas do pintor convocado.

Sublinho o eco que o livro de Viale Moutinho estabelece com a música. Este diálogo surge de forma subtil em “As eternas palavras”. Neste poema, evidencia-se, sobretudo, o facto de os tempos actuais serem “musicados” por sons vazios e desajustamentos do Ser. A música poderia corresponder a “belos// violinos da terra comprometida” (p. 10). Mas a Palavra, e a sua musicalidade, perde-se em encontros desprovidos de sentido. Compreender-se-á, então, que em “Nocturno” a tonalidade musical anuncie dissonâncias e desencontros: “as tábuas imaginárias são a ponte// da culpa, o grito com raízes incandescentes//e as sombrias figuras afastam-se na noite,” (p. 31). Em “Tarde de sábado” (p. 46), as Variações de Goldberg, variações para cravo originalmente intituladas “Exercício de Teclado”, ditam o virtuosismo de Bach, mas exploram, sobretudo, a barroquização das tardes da voz do texto. São momentos de um quotidiano banal; são reflexos de uma tristeza profunda.

Em Inóspita Paisagem irrompem outras linguagens artísticas: o desenho (em “Rasura”, p. 33) e o teatro (em “Finale”, p. 13). Alude-se, também, à fotografia e ao cinema, através do poema “O desaparecido (João Pestana)” (p. 24). Personalidade relevante da cultura madeirense, João Pestana é aqui relevado, e bem, pela mão do autor.

A par desta multiplicidade de linguagens surgem diversas cartografias no livro de Viale Moutinho. Primeiramente, será destacada a cidade de Lisboa. O Douro será recordado no poema “Ao entardecer” (p. 38). Por sua vez, a Ilha ocupará um contributo notório no corpo do texto. O Sujeito parece seguir o princípio elencado na epígrafe do livro. De facto, os dois versos de Camilo Pessanha sugerem que somos marcados por “um fio a desdobrar, que não termina” (idem). Como o fio de Ariadne, o desfiar de circunstância e assuntos interligam-se, alimentando ora o ímpeto vital, ora o impulso para o vazio. Estas problemáticas continuam a interpelar-me como leitora, assim como todas as que convocam a Madeira.

Sublinho os traços ‘insulares’ na escrita de Viale Moutinho. Trata-se de dizer a “[ilha] de pedra” (p. 12) a partir do poema “Antecâmara escura” (pp. 14-18). Com quatro secções, esta proposta poética anuncia um referencial local: a bebida – com a malvasia e a poncha; a costa – a Praia Formosa, o Cabo Girão e a sua fajã; a fauna – com as cagarras, em particular; a História – as navegações, os corsários, os saques e a fuga para o interior da Ilha.

Como refere a voz do texto, “o baralhar dos elementos essenciais da paisagem” (p. 17) permite anunciar a pacatez de junho que se vive na Ilha. Esta indolência é apenas interrompida por quem procura este lugar. Contudo, em Inóspita Paisagem, a identidade insular está ligada a um certo amargo mal-estar dos tempos actuais, mais turistificados do que lendários, como se depreende na primeira secção do poema:

 

  1. “Neste acabar de um domingo absolutamente

inútil, apetece-me sorrir com leviandade,

alguma bonomia, uns copos de malvasia e o olhar

 

posto na orla marítima, é assim que conheço

a ilha com a calma do mês de junho e a cidade

de um velho que procura sempre as navegações,

 

poderia ter nascido para marinheiro português,

mas coube-me apenas escrever, ler, descrever

o que imagino por detrás dos meus pobres olhos,

 

quanta cinza, quanta vontade de rir, enorme

a promontório do Cabo Girão, onde todos querem ver

a fajã das casas tornadas impossíveis, a fajã

 

que atraiu tanta e tanta gente devagar, vã,

de mão dada com o nosso desespero, neste acabar

de um domingo absolutamente amargo,” (p. 14)

 

O Sujeito anuncia “sinais de estranhos ventos” (p. 32) e funde-se na voz autoral: “sou o habitante ínfimo da ilha azeda,//subtropical, o cavaleiro andante anguloso//que não quer perder-se entre as gentes, “ (Horizonte, p. 41). São vários os efeitos intratextuais: ora porque o escritor convoca títulos de obras anteriores (Sombra do Cavaleiro andante), ora, sobretudo, porque o Poeta recupera versos de poemas publicados. Através do diálogo e da reescrita, a voz do texto parece ditar uma imperiosa necessidade de registar encenações do Eu e do Outro, fazendo, simultaneamente, perdurar gentes, lugares e sensações.

O olhar que recai sobre a Ilha retrata o lugar de forma sombria. O breve poema “Aguarela” (“Chovendo, a ilha transforma-se, mas as nuvens são//a cinza do mar e as aves, como o silêncio, abrigam-se//sob o tapete, ao sabor das luzes mais negras do Funchal”, p. 27) é lapidar na forma dissonante de apresentar a cidade. Outros poemas inscrevem-se sob o signo de “Perdas e danos” (p. 47). No entanto, apesar das disforias que se desdobram na escrita moutiniana, parece-me (entre)ver, no livro do escritor, renovadas vontades e a utopia (ainda) possível:

 

“o mar, é conveniente que saibas, amolece

o sonho, abre caminho entre as pedras,

ornamenta-se e serve de cenário às cenas

 

terceiras da nossa vida burocrática, mesmo

assim os navegadores voltaram às paisagens

para reparar o que o vento possa ter rasgado, (“Este Mar”, p. 58)

 

A voz do texto procura observar a(s) cidade(s), denuncia quem se aparta dos lugares, critica quem se apropriou do espaço, assaca quem envereda pela inutilidade e pela indiferença, diz a inquietação do ser, escreve para não se perder. Quer, ainda, acreditar: “solto uma frase romântica e penso//como posso, baseado nas últimas leituras/com poderia eu próprio ser um rei navegador,” (in “As vozes e a Carta de Pero Vaz”, p. 28).

O território poético de Viale Moutinho é a expressão de uma vinculação a uma poesia de filiação atenta a um real. Todavia, o olhar do Poeta transfigura essa realidade, imprimindo, nas suas observâncias, a consciência do desvanecimento do mundo. Trata-se de uma textualidade própria do autor que se faz acompanhar por uma multiplicidade de ritmos (ora um poema mais longo, ora um registo breve, ora uma formulação mais narrativizante). Aprecio, de facto, as diferentes experiências rítmicas, a reflexão estética com outras vozes e áreas disciplinares, bem como as múltiplas observações sobre o devir do mundo local e global.

Referência bibliográfica:

José Viale Moutinho, Inóspita Paisagem, Fafe, Editora Labirinto, 2019, col. “Contramaré”.