Saber e sentido de oportunidade

Elaborar um programa comemorativo de uma efeméride implica conhecimento da História. Mas o que se tem visto, nas comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira, é a ignorância da História. Porque não sabem nem ouvem os historiadores, vão perdendo oportunidades de uma celebração condigna de um Sexto Centenário, com iniciativas que contribuam para a educação dos porto-santenses e madeirenses, fortaleçam a sua identidade cultural, promovam a cidadania e divulguem a cultura madeirense fora do arquipélago, sendo este último objectivo de consecução difícil por algumas manchas negativas, aqui geradas, e um sentimento de desconfiança do outro lado do mar arreigado.

O poder espiritual no arquipélago da Madeira pertenceu à Ordem de Cristo. A heráldica da Região Autónoma da Madeira ostenta a cruz da Ordem de Cristo. A Ordem de Cristo comemora 700 anos de vida. Logo as comemorações dos 600 anos do povoamento do Porto Santo e da Madeira deveriam associar-se ao Sétimo Centenário da Ordem de Cristo.

Não se trata de um silogismo. Mas de sentido de oportunidade: agregar efemérides e projectar as comemorações insulares num contexto mais vasto.

A divulgação da História não depende do calendário. Contudo, a celebração apropriada de datas significativas tem efeitos pedagógicos, e sempre as comunidades tiraram partido dos dias festivos. Desconsiderar esta realidade é não compreender as dinâmicas sociais e os seus ritos.

Instituída pela Bula Ad ea ex quibus, do papa João XXII, datada de 14 de Março de 1319, a Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo surgiu por diligências do rei D. Dinis, junto da Santa Sé, na sequência da abolição da Ordem do Templo. A nova Ordem recebeu os bens, que tinham pertencido à Ordem extinta, e acolheu alguns ex-freires templários. A sua primeira sede localizou-se em Castro Marim, no Algarve, vila fronteiriça do mar e de terras de mouros. Só em 1357, a Ordem de Cristo ocupou o convento de Tomar, antiga sede dos Cavaleiros do Templo.

Em 1420, a administração da Ordem de Cristo foi confiada ao Infante D. Henrique. Doravante, esta Ordem ficará associada às conquistas e aos descobrimentos portugueses, pelo ideal de combate aos infiéis e de expansão da fé cristã. A bula Inter cetera, do papa Calisto III, de 13 de Março de 1456, que confirmou a Romanus Pontifex de Nicolau V, de 8 de Janeiro do ano anterior, concedeu, perpetuamente, à Ordem de Cristo, o poder, domínio e jurisdição espiritual sobre as terras, portos, vilas, ilhas e lugares já adquiridos ou que viessem a sê-lo pelo Infante, desde os Cabos Bojador e Não, por toda a Guiné e costa meridional até aos índios.

O rei D. Duarte, por carta de 26 de Setembro de 1433, doou à Ordem de Cristo, a pedido do seu irmão, o Infante D. Henrique, o espiritual das ilhas da Madeira, Porto Santo e Deserta. Na mesma data, D. Henrique recebeu o senhorio do arquipélago da Madeira. Assim, nestes primeiros tempos do povoamento, o Infante era Senhor destas ilhas, na qualidade de donatário, e, simultaneamente, interferia na administração eclesiástica, como regedor e governador da Ordem de Cristo.

A actuação da Ordem de Cristo ultrapassava a jurisdição espiritual e englobava também domínios da administração e da justiça.

Pelo papel que desempenhou no arquipélago madeirense, desde os primórdios do povoamento, mostra-se pertinente assinalar o Sétimo Centenário da Ordem de Cristo, associando-o às comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

Na Sociedade de Geografia de Lisboa, realizar-se-á amanhã um colóquio comemorativo dos 700 anos da Bula Ad ea ex quibus, bula fundacional da Ordem de Cristo (14 Março 1319-14 Março 2019). A História da Madeira estará presente através da comunicação de Vítor Serrão, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e vice-presidente da Academia Nacional de Belas Artes, subordinada ao tema O retábulo ‘Manuelino’ da Sé do Funchal, uma obra-prima do mecenato da Ordem de Cristo.