Quem foi quem no século passado

Quando a idade avança, mais presente temos as memórias de pessoas notáveis desse século XX. Tive a felicidade de ter conhecido muitas delas, através do meu avô Francisco Bento de Gouveia e de meu pai Horácio Bento de   Gouveia, também eles notáveis no campo jornalístico e não só.

Ao meu avô se deve a existência do “Diário da Madeira”, de peças de teatro, da empresa cinematográfica “Madeira Film” entre outras valias; a meu pai, o jornalismo juvenil com demais amigos –  Álvaro Favila Vieira, Octávio de Marialva – com quem privei pessoalmente e o Dr. Manuel Ferreira Rosa, amigo dos tempos de Liceu, da Universidade onde ambos frequentaram Direito e Letras.

Lembra-me de em miúda ver, mais do que uma vez, o velho Major J. dos Reis Gomes, segurando a sua bengala, atravessar o Largo do Colégio. O filho Dr. Álvaro dos Reis Gomes, contemporâneo de meu pai, professor distinto e uma das filhas pela minha idade, Maria Eugénia Reis Gomes, foram da nossa amizade. Outro vulto, que na juventude foi professor de meu pai, o Tenente Coronel Artur Sarmento, via-o passar quase diariamente na Rua da Carreira, com o seu fato cinza, polainas e chapéu de coco cinzento condizente e a bengala. Foi uma figura distinta da cultura madeirense, deixando obra feita. Os políticos e irmãos Drs. Juvenal e Alberto de Araújo, foram figuras brilhantes que conheci, assim como o velhinho Padre Fernando Augusto da Silva. Visitáva-mo-lo amiúde na sua
residência em Santo António, e a ele se deve o Elucidário Madeirense em três volumes, além de muitas outras publicações – era um estudioso nato. Naquela altura já muito idoso e com dificuldade em exprimir-se, tinha sempre uns blocos onde escrevia as perguntas e outro onde recebia as respostas.

Outro sacerdote, que foi também um erudito, o Padre Eduardo Pereira acompanhava muito as duas irmãs e, contrariamente aos outros sacerdotes da época, não usava sotaina antes calça e casaco comprido pretos tal como o chapéu. Publicou obra notável no campo da biologia e zoologia da Ilha.

O Cónego Fulgêncio, um homem enorme em altura e volume, foi um dos vários docentes de Religião e Moral no nosso Liceu de Jaime Moniz; muito exigente e disciplinador, deu-se com ele um episódio “maldoso”, numa das suas aulas, onde os alunos eram na sua maioria rapazes; o António Maia ,filho do Dr. Maia, dono de um dos primeiros laboratórios de análises do Funchal, finalista do liceu, combinou com outros colegas encher de giz a cadeira giratória da secretária, onde o Cónego se sentava com dificuldade, sempre carregada com uma enorme pasta.

Quando ele entrou com os seus passos um tanto cambaleantes e se sentou, houve uma nuvem de giz que o fez exaltar, mandou sair toda a turma e logo uma suspensão. Foi uma situação hilariante para a rapaziada, mas acabou mal!

Houve também nesse século jornalistas brilhantes que conheci, graças a meu pai, nas idas constantes à redacção e tipografia do Diário de Notícias, que foram o Sr. Alfredo Camacho, o Sr. António Canavial; o Sr. Gonçalves Preto e o seu Re-Nhau-Nau, o Sr .Baptista Santos, poeta e director do “Diário da Madeira”, o Sr. Comendador Veiga Pestana, que durante muito tempo esteve à frente do “Comércio do Funchal” e lembro, igualmente, o prof. Bastos Machado, Dr. Elmano Vieira, Dr.Jaime Vieira Santos cronistas desses diversos jornais, incluindo o “Jornal da Madeira”. O semanário “Eco do Funchal” teve também bons jornalistas como o Director Sr. Abel Caldeira, e mais tarde Maria Mendonça, que ainda criou uma Tertúlia.

Os irmãos Pestana, de Câmara de Lobos, Drs. Antonino Eduardo Pestana licenciado em Letras e Direito, e Sebastião Pestana que cursou Letras, ambos filólogos de nome internacional.

Gostava ainda de mencionar mais dois amigos, todos dados a bem escrever e deixar obra feita, como foi o caso do Sr. professor Marques da Silva, amigo da juventude que palmilhava no norte da Ilha, de Ponta Delgada a São Jorge, tal como meu pai ou se carteavam para de parte a parte falarem dos seus escritos.

Essas amizades fortaleceram-se e perduram hoje nos descendentes, que é o caso da minha muita amizade de 80 anos com o António Marques da Silva.

Lembro ainda a amizade do Sr. Alberto Figueira Gomes, distinto prosador, cuja obra começa a ser agora conhecida. Mas, ainda há mais vultos na história literária do século passado, como foi o caso do Visconde do Porto da Cruz, com a sua vasta cultura,
escrevendo para dentro e fora da Ilha e exprimindo-se em outras línguas, e também conferencista.

Fugindo aos vultos das Letras, tivemos os irmãos Clode: o Sr.Engenheiro Luis Peter Clode e Dr.WIlliam CLode, e a música. A eles  se deve a criação do actual Conservatório de Música da Madeira e nos idos anos quarenta a Sociedade de Concertos da Madeira, com magníficos músicos nacionais e estrangeiros.

Na dança, tivemos a Escola de Dança do conhecido Vicentinho, à rua das Hortas, e o bailarino Sr.Henrique Martins.

Faltava referir alguém ímpar na Medicina, não apenas pelo saber e a genialidade, que foi o Dr. Aníbal Faria.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.