Investigador Carlos Alberto Gomes defende que a escola deve apostar mais numa estratégia relacional com os alunos

Carlos Alberto Gomes recomenda também uma estratégia concertada dos conselhos de turma para lidar com os alunos. Fotos António Freitas.

Quem olha para o sistema educativo atual verifica que “há uma grande distância entre os que fazem a investigação e aqueles que estão no terreno ou na sala de aula”. Esta crítica é assumida pelo professor doutor Carlos Alberto Gomes que fez, ontem e hoje, duas conferências para os docentes da Escola Secundária Jaime Moniz, a convite do Conselho Executivo. O investigador defende que é preciso apostar numa estratégia educacional que valorize os afetos e os esclarecimentos aos alunos, sem as imposições ou autoritarismo do passado.

Ana Isabel Freitas, à frente do Conselho Executivo da ESJM, lançou o repto ao investigador da Universidade do Minho para partilhar os seus conhecimentos com os diretores de turma e demais professores sobre as estratégias a adotar na sala de aula, bem como sobre as dimensões da autoridade, pedagogia e cooperação na escola e na sala de aula.

Com vários títulos publicados sobre a sociologia da educação e as observações do decurso das salas de aula, este investigador sensibilizou os ouvintes para a mudança do paradigma da escola atual, num contexto de Democracia, com realidades emergentes como o domínio da tecnologia. Para trás, ficou uma pedagogia assente na imposição de conteúdos e na repressão, sendo cada vez mais necessário abrir a escola uma cultura de diálogo e de respeito pelas diferenças.

Para o docente do Departamento de Sociologia de Educação e Administração Educacional da UM, o perfil atual dos alunos exige da parte dos conselhos de turma “uma estratégia concertada” em relação a várias matérias, não só numa lógica funcional mas também em termos educativos. “Há alunos que, após analisarem bem os seus professores, adotam comportamentos diferentes de aula para aula. O aluno é um “camaleão”, dança conforme a música. Neste sentido, “é importante ter uma estratégia em bloco, de consenso”.

Tendo por base um estudo pessoal, realizado com 113 alunos, de diferentes níveis sociais, Carlos Alberto Gomes concluiu que os estudantes consideram o professor ideal, não aquele autoritário ou permissivo mas o meio termo. Aliás, citando Durkheim, “educar não é domesticar”. No passado, não se davam explicações mas sim vozes de comando. Neste tempo de liberdade, a tolerância é essencial, mas sempre num contexto de direitos e deveres para que o ensino-aprendizagem tenha de acontecer. “Os alunos adoram a escola, não a escola do castigo mas um espaço de liberdade”.

Além de defender que é necessário que as direções de turma trabalharem no sentido de definirem uma “estratégia relacional” adequada aos tempos atuais, o investigador alertou ainda para o facto de a escola pública ainda estar muito orientada para a formação académica. “É necessário também trabalhar aspetos relevantes como o afeto, dar aos alunos mais esclarecimentos e menos imposições, dar-lhes armas para a vida. É preciso alertar os jovens para as armadilhas da liberdade, como a toxicodependência e outros comportamentos de risco. Os alunos valorizam muito esta dimensão de esclarecimento dos profe3ssores.”