Qual é a realidade da cultura tradicional madeirense?


É com uma tristeza tão profunda, que vejo muitas das nossas tradições morrerem, ou então, existirem simplesmente “mortas”, nas mãos dos museus. Algumas nem direito têm de ser vistas, mesmo que seja aos nacos, nos acervos museológicos ou em espaços expositivos. É verdade, que alguns grupos de folclore e etnográficos, sempre vão fazendo o que podem, recolhendo e recriando etnograficamente alguns quadros da nossa cultura tradicional, mas não chega.
Pois, os que, realmente, podem e devem, apoiar esta causa, para que se possam manter bem vivas, algumas das genuínas tradições da nossa região, pouco ou nada fazem. Na teoria enaltecem, enaltecem, mas na prática desiludem, desiludem. As tradições para não morrerem, precisam de menos teoria e mais prática.
Não basta apostar só na simples amostra solta de algumas peças, artefactos, memórias, e outros elementos, em espaços expositivos. O que é mesmo preciso, é reativar o que ainda é possível e não deixar sucumbir o que existe. Desde os afazeres com vimes, linho, artefactos em cana, a arte dos picheleiros – pelo que sei, um dos últimos picheleiros deixou de trabalhar nesta arte, há poucos anos, na Freguesia do Estreito de Câmara de Lobos. E o que se fez para salvaguardar este ofício? Onde está a tradição dos homens que conduziam carros de bois que circulavam no Funchal? Com os devidos cuidados de segurança, higiene e saúde pública, que bom seria existir uma artéria na cidade do Funchal para reativar-se este meio de transporte turístico, com um carro ou dois pelo menos. Onde estão os engraxadores de sapatos, entre outras tarefas e mestres da arte tradicional que desapareceram? É caso para lamentavelmente dizer de viva voz: Infelizmente, tudo o tempo levou.
Não sou contra o desenvolvimento quando este é capaz de envolver criativamente a cultura popular. No entanto, sou contra um desenvolvimento que não seja capaz de aperceber-se da importância fulcral de salvaguardar-se as tradições de um povo.
A arte popular tem sido uma benigna fonte de inspiração para a criação de peças de design contemporâneo. Um exemplo concreto, são as diversas aplicações que se têm dado ao bordado madeira. Não sou contra a utilização do artesanato para a criação do chamado novo artesanato, desde que se crie com um olhar no futuro, não deixando extinguir-se as genuínas artes tradicionais.
O artesanato e o design moderno podem e devem andar de mãos dadas de forma a ajudar a salvaguardar as tradições e a suas comunidades. O que não se deve fazer é criar e vender peças de design moderno, divulgando-as como  peças de artesanato tradicional.

Na nossa ilha, temos alguns saberes e afazeres tradicionais que contam com técnicas ancestrais, que poderiam ser exploradas, também, como um verdadeiro fator de promoção económica e turística local.
Todos devemos ter a preocupação de preservar o património cultural, que herdámos dos nossos antepassados. E preservar é também falar, debater, registar de forma escrita, fotográfica ou videográfica.

Há que incentivar, apoiar e criar um verdadeiro projeto regional de arte tradicional que envolva os mestres dos ofícios tradicionais das diversas localidades madeirenses, sem mostrar outras vertentes económicas. Apresentar a terra, os artesãos e o trabalho por eles desenvolvidos, é a melhor forma de conhecermos a cultura popular da nossa região.

Não tenhamos dúvidas que a grande maioria das nossas tradições estão extintas ou ameaçadas e urge trazê-las de alguma forma, para a contemporaneidade. E a criação de peças contemporâneas feitas por artesãos/artistas, inspiradas pelas tradições têm o seu lugar, mas reafirmo que nada substitui uma tradição viva.
Por vezes, aparecem pequenas mas louváveis iniciativas em prol da nossa cultura popular e tradicional, como, por exemplo, o lançamento do livro “São Jorge: Memórias de um Povo” que aconteceu no passado dia 11 de maio na Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de São Jorge – Cardeal D. Teodósio de Gouveia. É um livro que ficará como um pequeno contributo, com registos de partes da sabedoria popular da freguesia de São Jorge, através da recolha de tradições orais.
Outro bom exemplo é o que acontece no Parque Temático da Madeira, no seguimento do seu papel de promoção do artesanato e tradições e no valorizar a nossa identidade cultural. O mesmo acontece no Museu Etnográfico da Madeira, com atividades esporádicas, como uma oficina de aprendizagem dos embutidos, que é uma atividade pedagógica de valorização e divulgação cultural. Ainda há pouco tempo realizou-se uma oficina de Chapéus de Palmito no Porto Santo. A Casa do Povo de São Martinho acolheu em Junho, a I Mostra Regional do Bordado Madeira.
Por falar em Casas do Povo da RAM, julgo que estas instituições pelo facto de estarem mais próximas das comunidades locais, podem e devem ter um papel fundamental, com os devidos apoios, em manter e recuperar algumas tradições das suas localidades.
Gosto e acredito no poder do saber fazer tradicional. O campo tradicional é uma fonte de conhecimentos, por isso defendo que os testemunhos da cultura tradicional madeirense sejam considerados e apoiados de uma outra maneira, para sermos genuínos e tirarmos até proveitos económicos.
O universo tradicional, não pode ser só recriado por alguns grupos de folclore ou etnográficos. Até para termos um turismo sustentável, mais consistente, também é necessário uma cultura popular viva. Ai sim, poderemos falar numa oferta turística única e diferente das demais.
A importância das tradições na identidade do povo madeirense deve ser uma prioridade para se comemorar, ainda melhor, o Ano Europeu do Património Cultural e os 600 anos da descoberta da Madeira.
Formar cidadãos cultos e ativos, implica também possibilitar o contato vivo e direto com as nossas raízes, através das tradições, que são as inúmeras manifestações e artefactos, utilitários, decorativos, lúdicos, profanos ou religiosos.

Lutemos juntos pela defesa e salvaguarda do património cultural tradicional da Região Autónoma da Madeira, não, somente, como referência ao passado, mas, também, como desígnio do presente e para o futuro.

Olhar para as tradições é olhar para o que nos caracteriza enquanto ilhéus. Uma comunidade para ter uma identidade própria tem que valorizar a sua cultura popular.
Por isso, acarinhar e proteger as tradições, é um bom exemplo, de mostrar um pouco do que somos. A arte tradicional se não for acarinhada e preservada desaparece rapidamente. Vem a propósito as sábias palavras de Tolentino Mendonça: “A arte antes era a eternidade. Hoje é um fósforo aceso sobre o instante”.


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