Esta coisa de ficarmos isolados na ilha já vem de longe. Estamos numa ilha, só podemos sair por ar ou por mar, não se pode fazer por menos, por isso o mais natural é que, sem barco e sem avião, nada feito, ficamos por aqui. Sempre corremos esse risco, já sabíamos disso desde que tomámos consciência que vivíamos numa ilha. E sempre foi dito, ao longo dos tempos, que era importante termos um transporte, aéreo e marítimo, em consonância com essa necessidade. Mais aéreo do que marítimo, porque tempo é dinheiro, mas se fosse possível os dois, em pleno, tanto melhor, envolvendo mercadorias e passageiros. Mas não era só para o verão, era para o resto.
Desde sempre, num contexto nacional, sentiu-se uma dificuldade aparentemente inexplicável de entendimento desta realidade, do ponto de vista do todo que é o País, mas explicável pela parte que o centralismo não deixa ver, do que era uma ilha, uma perceção que podiam ter mesmo que não soubessem o que era viver numa ilha. Tinham, então, “à perna”, a reivindicação regional, o contencioso das Autonomias que, de uma forma ou de outra, ia resolvendo este isolamento com um princípio da continuidade territorial e um serviço público correspondente.
Os tempos foram duros até Lisboa perceber isso. Perceber, é como quem diz, foi percebendo sem aceitar por força de uma cultura com resquícios coloniais que ainda perdura por muito que queiramos modernizar a visão sobre estes assuntos da insularidade. Há centralismo, há Lisboa e o resto é paisagem, há um esforço nacional por mudar mentalidades, mas é precisamente essa a parte pior para mudar.
Falando do transporte aéreo, nos últimos tempos, este ano particularmente, tem sido um suplício em matéria de voos cancelados “por motivos operacionais”. O que, assim pela rama, dá para tudo. Nestes “motivos operacionais” encaixam todas as situações que servem de argumento, sobretudo à TAP, para assumir esse procedimento de forma constante, com uma leveza assustadora, ao ponto de estarmos sempre com “o coração nas mãos” quando é para sair da ilha. Ou quando é para entrar. Há continuidade territorial, pelo menos no discurso, há serviço público, porque a TAP continua a ter capital público, é verdade que houve liberalização da linha mas continua havendo empresa parcialmente pública, mas o que pode não haver é a viagem, com os transtornos daí resultantes, que colocam em causa a vida das pessoas e o turismo para a ilha, sabendo como sabemos a importância do transporte numa Região turística, onde os acessos são preponderantes quando é para decidir um destino.
Claro que situações de exceção acontecem e acontecerão sempre, em qualquer atividade, em qualquer momento. No transporte aéreo também, há imponderáveis pontuais, há ventos, nevoeiro, há regras a cumprir para segurança. O que não podemos aceitar é que essas exceções estejam a tornar-se um modo de operar no mercado. Tornou-se normal, banal, deixar passageiros no aeroporto, pura e simplesmente por “razões operacionais”. É o aeroporto de Sá Carneiro em obras, uma greve em Marselha ou noutro sítio qualquer, e pronto, está cancelado, vai um dia destes num dos voos que não estejam atingidos pelas “razões operacionais”. Perdeu hotel, dias de férias, de trabalho, um exame médico em Lisboa, escola dos miúdos, nada disso interessa, cancelou e pronto, siga noutro avião e pague o atraso, a alimentação, a estadia que está esgotada para a companhia mas onde se encontra qualquer coisa se for o passageiro a pagar.
A TAP tem história na Madeira, faz parte da história da Madeira, tem desempenhado um papel importante ao longo dos tempos, fez recentemente uma homenagem aos 600 anos da Descoberta da Madeira e Porto Santo, convidando muita gente para uma viagem com serviço de excelência. Tudo isso é verdade. Mas o que os madeirenses precisavam mesmo era que cancelasse menos voos. E se isso acontecesse hoje, tanta a instabilidade vivida nos últimos tempos, já era como uma “Descoberta da Madeira”. Era melhor do que pintar aviões.
Certamente que os madeirenses gostariam de continuar a poder contar com a TAP. Por tudo o que liga a companhia à Madeira, pelo serviço que tem prestado, na generalidade, à Região. Até porque a TAP, independentemente do que aconteça, ainda tem um capital de preferência com o qual não deveria lidar com esta sobranceria. Esperemos que a consciência da companhia e a firmeza de posições governamentais, em simultâneo com todas as cartas de protesto, acompanhadas por “voz grossa”, mesmo que enviada dos Estados Unidos por “via privilegiada”, venham resolver este problema, que está a tornar-se grave.
Enquanto muito se discute, dia sem cancelamento começa a não ser dia. E os madeirenses já começam a questionar sobre a importância de alargar o número de operadores, mesmo sabendo, por outro lado, que muitos desses madeirenses, às vezes, reivindicam muito e fazem pouco, é uma questão de atitude. Pedem o barco e não andam de barco, pedem o cargueiro e não enviam mercadoria pelo cargueiro, pedem outras companhias mas marcam sempre na TAP.
Esperemos que tudo se resolva. A Madeira não pode ser penalizada por ser uma ilha. Esperemos, em síntese, que a situação não chegue a um ponto que esses mesmos madeirenses tenham, por “saturação” igual aos “motivos operacionais”, que optar por viagens noutras companhias.
Se não quiserem ficar “em terra”, uma expressão rebuscada no baú das recordações que na altura significava precisamente não conseguir viajar. na altura e agora. Então, quando em termos populares era expressão corrente, logicamente ainda ninguém pensava nesta pomposa estratégia comunicacional de “motivos operacionais”.
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