O que aí vem?

Nota prévia: problemas de saúde de natureza oftalmológica têm-me impedido, desde setembro do ano transacto, de manter um contacto regular com os leitores do Funchal Notícias. Pese embora não tenham sido superados, o «bichinho» pela escrita que faz parte da minha vida desde a adolescência impele-me a retomar essa colaboração, ainda que com acentuada limitação.

Considero que incerteza é a palavra que melhor define o nosso futuro enquanto país e enquanto região. Designadamente em termos políticos. É essa de resto a imagem que as mais recentes sondagens, nacionais e regionais, têm expressado.

A nível nacional, à distância de mais de um ano das próximas eleições para a Assembleia da República, o cenário mais provável que é possível antever aponta para uma vitória do PS, sendo que a grande dúvida é saber se conseguirá atingir sozinho a maioria absoluta ou se precisará de encontrar um ou mais parceiros políticos que lhe permitam manter a chefia do governo. E neste caso se a aposta será a reedição da actual solução governativa com uma ou outra nuance, ou se António Costa preferirá aproveitar a disponibilidade já manifestada por Rui Rio, actual líder do PSD.

No plano regional os eventuais cenários parecem ser em maior número, a avaliar pelas mais recentes sondagens que o «independente» cá do burgo tem vindo a publicar.

Salta desde logo à vista, a probabilidade de nenhum partido obter a maioria absoluta, facto que a ocorrer seria naturalmente histórico, atendendo a que há 40 anos que o PSD/M governa a Região, sempre com maioria absoluta. Mais surpreendente seria a possibilidade do partido da Rua dos Netos não ser o mais votado, o que, mantendo-se no país e nos Açores, a actual correlação de forças partidárias, representaria que pela 1ª vez na nossa história democrática o PSD deixaria de deter responsabilidades governativas em qualquer parcela do território nacional.

Não deixa, aliás, de ser sintomático que quer o actual líder do PSD/M quer o anterior não rejeitem liminarmente essa hipótese, ao ponto de AJJ considerar que Albuquerque daria um «bom» parlamentar europeu, sugerindo que o mesmo reflita se está em condições de ganhar ou não as próximas eleições regionais. A reacção de Albuquerque apontando AJJ para idêntico lugar evidencia claramente que pelo menos num ponto coincidem: ambos preferem estar bem longe um do outro, o que não deixa de ser um sinal claro do clima reinante nas hostes laranja que, a avaliar pelo que se vai conhecendo publicamente, está bem distante da unidade musculada de outros tempos.

Já nas hostes do PS local a euforia parece ter assentado arraiais. A nova liderança aposta numa espécie de salvador, de nome Paulo Cafôfo, uma estratégia que pelo que se viu no congresso regional conta com o apoio da estrutura nacional do partido. Cafôfo dá-se, aliás, ao luxo de considerar que já foi politicamente «julgado» pela tragédia da queda da árvore no Monte em Agosto de 2017.

Ora, o bom senso e a prudência aconselhariam a que o edil funchalense fosse bem mais cauteloso. Desde logo porque aquando das últimas eleições autárquicas ainda não fora constituído arguido e sendo deduzida acusação é de prever que uma boa parte dos partidos concorrentes às regionais de 2019 venha a utilizar essa eventual circunstância até à exaustão, procurando penalizá-lo eleitoralmente.

Acresce, por outro lado, que tudo indica que o cenário (uma coligação eleitoral) que garantiu a vitória a Cafôfo nas autárquicas de 2013 e 2017 não se repetirá, uma vez que os diferentes partidos se preparam para concorrer isoladamente. E nesse cenário parece pouco credível que o PS assuma que, à posteriori, tanto poderá coligar-se à esquerda, como à direita, uma vez que não se vislumbra que, tendo apontado o social como a prioridade política, as preocupações a esse nível possam coincidir com as do CDS/PP, a menos que o lema da nova direcção do partido sediado na Rua da Alfândega seja atingir o poder a qualquer preço.

Resta ainda saber qual a receptividade que o eleitorado madeirense e portossantense concederão à nova estratégia do «renovado» governo regional que, ao fim e ao cabo, consiste essencialmente no retomar do estilo de governação jardinista, assente no regresso em força das obras públicas, da chamada política do betão, e da culpabilização de Lisboa, leia-se governo da República, como responsável por todos os males de que enferma a Região. Isto é, ver-se-á se a teoria do «inimigo externo» continua a render votos ou foi chão que já deu uvas.

 

* Por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

 

Apostilas: 1) O outrora auto-intitulado «único importante» cá do burgo decididamente não tem vergonha. Então, não é que a criatura justifica a transformação da dita Fundação Social-Democrata em Instituto para permitir que a sociedade civil possa debater livremente, sem ser objecto de «enxovalho» pela comunicação social e pelas redes sociais. Pelos vistos o dito cujo esqueceu-se que nos seus tempos áureos foi catalogado como «campeão português do insulto». E como se isto já não bastasse, eis que a criatura alega não ter dinheiro para pagar a multa a Gil Canha a que foi condenado pelo Tribunal. Que tal um peditório?

2) Agora que se fala que o volume da música e a vibração provocada pelos foguetes pode ter contribuído para a queda da árvore no Monte, será que as práticas exorcistas que, ao que consta, decorriam na zona, poderão ter tido idêntico efeito?


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