Uma apreciação crítica do espetáculo “AGRAVADOS”

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Se podemos afirmar, com alguma legitimidade, que “Os olhos são os espelhos da alma”, não será menos verdade tomarmos a dramaturgia de Gil Vicente como um espelho que fielmente reflete a alma da sociedade do século XVI.

É nesta justa medida que se integra o espetáculo AGRAVADOS, a partir da Comédia de Rubena; Auto de Mofina Mendes; Auto da Feira; Quem tem Farelos? e Romagem de Agravados, do dramaturgo português, com dramaturgia e encenação de Gisela Cañamero e assistência à encenação de Fernanda Gama.

agravadosApesar de reclamar um exigente trabalho de seleção e interpenetração de textos, foi reconhecível o condão de levar à cena, no seu dia de encerramento, no velhinho e sempre deslumbrante Teatro Baltasar Dias, uma peça estruturada, sem ruturas nem passagens forçadas, num fio condutor magistralmente urdido e profissionalmente representado. Conforme ensinava Aristóteles, “O homem vale pelo que pensa, pensa pelo que sabe, sabe pelo que lê”.

Os Agravados estiveram bem redivivos em palco, desde o povo “pelado” por fidalgos presunçosos e vãos a clérigos de vida folgada, vivendo, uns e outros, do confisco do trabalho alheio, sustentados por homens de leis e funcionários especializados no fabrico de alvarás em benefício de afilhados.

Amores proibidos, venda de indulgências, depravação dos costumes, misticismo e  mundanismo surgiram, como de costume na obra vicentina, de mãos dadas, no habitual duelo entre bem e mal, invariável e inevitavelmente,  perdido pelo primeiro.

Mais uma vez tivemos a incontornável figura do Diabo que não força ninguém ao pecado, já que as personagens-tipo apresentadas se encarregam de o seguir nos seus ínvios caminhos, mau grado a sua origem, alegada devoção ou falsos votos. Tudo, aliás, termina em folia com o Diabo “maior vendedor de enganos” , na dança de roda, a ajudar à folia.

Teatro rústico e primitivo, mas extremamente crítico dos costumes, ressuscitou-se muito criativamente na sua missão moralizante e reformadora, provando à saciedade a natureza humana no seu fácies mais egoísta, falso, mentiroso, orgulhoso e frágil diante dos apelos da carne e do dinheiro, independentemente da classe social, raça, sexo ou opção religiosa.

Em suma, valeu inteiramente a pena revisitar  a obra vicentina, muito bem acolhida por uma plateia heterogénea, tão envolvida nos momentos que apelavam ao riso quanto participativa nos momentos musicais ou reativa quando convocada à reflexão.

Deixo, a concluir, uma citação de Clarice Lispector extensiva a todos os amantes da arte, sobretudo os que a promovem e partilham: “Então sonhei um sonho tão bom: sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morreremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade?”

Abel Torres

28/11/2016


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