Do legado do “patriota”

h_sampaio

No auge do desvario jardinista, em que só se conjugava o verbo obrar, era frequente ouvir os membros desses (des)governos que tivemos vangloriarem-se da existência na Região do designado “pleno emprego”.
Entretanto, hoje, tal como se verifica, de resto, noutras áreas, a Região passou a ser a campeã nacional do desemprego, como, aliás, têm vindo a revelar as estatísticas tornadas público nos últimos meses. E, pior ainda, ao contrário do que se vem verificando no resto do país, a Região vem sendo a única em que o desemprego, em lugar de diminuir, aumentou. Ou seja, também a este nível, estamos em contra-ciclo. E, num curto espaço de anos, passamos de uma espécie de “paraíso” para o “inferno”, no que ao drama do desemprego diz respeito.
Os números, aliás, poderiam ser bem piores, não fora a circunstância de serem milhares os madeirenses envolvidos em acções de formação e em estágios profissionais, paralelamente aos também milhares que, nos últimos anos, se viram forçados a emigrar por não encontrarem na sua terra condições para assegurar o seu sustento e dos respectivos familiares. Números que simultaneamente evidenciam que, muito embora o saldo entre o número de empresas criadas e encerradas tenha voltado a ser positivo, tal continua a não se traduzir em recuperação de emprego.
Não se perspectiva, aliás, que seja possível concretizar uma evolução substancial, se atendermos às características de grande parte da mão-de-obra desempregada, anteriormente afecta sobretudo à construção civil, às suas reduzidas qualificações e ao facto de possuir uma idade já significativa, na medida em que a época em que, entre nós, a palavra de ordem na moda era obrar, não voltará jamais.
Por isso, a muitas destas pessoas só restará ou o recurso à emigração ou o regresso ao trabalho na agricultura que abandonaram seduzidos pela cantilena dos governos de então de que o trabalho nas obras seria uma espécie de “el dorado” – regresso que, em muitos casos, não proporcionará muito mais do que a mera sobrevivência.
E também não o será porque, por outro lado, a economia regional nos últimos 40 anos, mal grado os milhões e milhões provenientes do orçamento comunitário e do OGE, não se diversificou, permanecendo, tal como foi a sua evolução ao longo dos séculos, marcada por ciclos de monoculturas: da cana-de-açúcar, do vinho, da banana, agora do turismo.
Ora, está bom de ver que uma economia com estas características, não tem condições para se desenvolver sustentadamente. Não só porque a aposta no turismo tem limites, mas também porque o tão badalado Centro Internacional de Negócios da Madeira nunca absorverá um elevado número de empregos, como, de resto, se tem verificado na designada Zona Franca e Industrial.
O legado de 40 anos da governação do auto-intitulado “único importante” cá do burgo é também este ou, se se preferir, é sobretudo este. Isto é, a criatura não só espatifou, desbaratou dinheiros públicos – e não faltam exemplos desde a marina do Lugar de Baixo, à lagoa do Santo da Serra, de pavilhões desportivos a piscinas, de fóruns a centros cívicos e a parques empresariais, etc, etc, culminando no denominado “ cais 8”, onde os navios de cruzeiro se recusam a atracar -, criou uma enorme dívida pública, ocultando, ainda por cima, parte considerável da mesma, e paralelamente nada fez para permitir que a economia regional pudesse vir a ter, hoje e no futuro, melhores condições para assegurar condições de vida dignas aos seus habitantes.
É, por isso, legítimo acusar a criatura de todo este descalabro económico e social que a Região vem atravessando, de modo particularmente dramático desde 2011, e que realisticamente não seja possível prever com segurança quando poderá ser substancialmente atenuado.
Um legado que, como se vem constatando de forma expressiva nos últimos tempos, assentava em aparências, em ilusões que, ao menor abalo, se têm vindo a desmoronar, umas atrás de outras.
Com efeito, não foi só o “melhor serviço de saúde do país” que deixou de o ser, agora até o rendimento disponível per capita na Região já foi ultrapassado pelo dos Açores.
Dirão os mais optimistas que ficarão as obras. Algumas vão tendo, contudo, o desfecho que já é conhecido. Não servirão para nada. Quando muito ficarão para recordar aos vindouros o que não deve ser feito por um governante responsável, preocupado em utilizar com rigor os dinheiros públicos. Outras não se sabe quando serão concluídas. E relativamente a outras ainda resta saber se haverá dinheiro para as conservar devidamente, sob pena de se degradarem irremediavelmente.
Sobretudo agora que o banco do laranjal regional, mas não só, se finou. O que, ao fim e ao cabo, não surpreende quem assistiu à morte da Caixa Económica do Funchal e ao nascimento do seu sucedâneo, o Banif.
Afinal de contas, mesmo que algumas almas carpideiras tenham lamentado este desfecho, sobretudo pelas consequências advindas do facto de deixar de haver uma instituição bancária com sede na Região, pode ser que, como se costuma dizer, haja alegados males que acabem por se tornar num bem. Nomeadamente se, dessa inexistência, resultar uma aplicação mais rigorosa do dinheiro por parte das entidades com responsabilidades públicas.
Neste contexto há decisões que não podem deixar de constituir motivo de repúdio.
É o caso da recente atribuição de uma condecoração ao principal responsável pelo estado calamitoso em que a Região se encontra. Ainda por cima porque na ocasião o Chefe de Estado, que não vai deixar saudades, teve o desplante de catalogá-lo de “patriota”. Como se, quem deixou um legado que tem vindo a ser duramente pago pelos madeirenses e porto-santenses e vai continuar a sê-lo, com idênticos sacrifícios, pelas gerações vindouras, merecesse semelhante epíteto. E o sr. Silva não se contentou em ficar por aqui. Resolveu contemplar outras personagens destes tempos de desvario. Já agora podia ter também encomendado uma comenda para o ex-líder par(a)lamentar regional do seu partido. Se o estilista da 1ª dama que está de saída teve esse direito, não há razão para não o ter incluído no ramalhete de tão distinto séquito.

• Texto escrito, por opção, de acordo com a antiga ortografia.

 


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